Crítica de filme: Batem à Porta
Knock
at the Cabin (Estados Unidos, 2023). De M. Night Shyamalan. Com Dave Bautista, Bem
Aldridge e Jonathan Groff. Suspense / terror.
Família
é feita refém por estranhos armados, dizendo que se ela não fizer um sacrifício,
acontecerá o apocalipse.
“Falem
mal, mas falem de mim”. Isso parece se aplicar à carreira do roteirista e
diretor M. Night Shyamalan, cujos filmes sempre geram grande quantidade de
comentários, variando entre os muito positivos e os muito negativos.
O
cineasta indiano estourou no longínquo 1999, com “O Sexto Sentido”, apenas seu
segundo longa em Hollywood. O filme foi sucesso absoluto: concorreu aos Oscar
de Filme, Direção, Roteiro Original e a mais três categorias, deu uma
bilheteria imensa e notabilizou-se por um “plot twist” que pega em cheio o
espectador, mas faz todo sentido. A surpresa, a revelação, a reviravolta - aquele impacto - passou a ser a marca registrada do cineasta em seus filmes
posteriores, para o bem e para o mal.
Bem
verdade que suas obras posteriores – “Corpo Fechado”, “Sinais” e “A Vila” –
fizeram sombra ao sucesso inicial e acenderam as primeiras críticas negativas
ao estilo ousado de Shyamalan, caracterizado por pregar peça no espectador com os
ditos “plot twists”. As críticas negativas, porém, atingiram o ápice com obras
menos pessoais, como “O Último Mestre do Ar” e “Depois da Terra”, de 2010 e
2013, respectivamente. São duas produções comerciais caras bancadas por
Hollywood que fracassaram retumbantemente, mas que, a defender seu realizador, não
contém sua marca autoral.
Mas
Shyamalan não se deixou abater, continuou fazendo cinema, porém mais
discretamente, atraindo bem menos atenção que no início dos anos 2000, de
forma que suas obras nunca alcançaram o mesmo retorno que no início da
carreira, dada a sequência de equívocos cometidos.
Eis
que em 2023 surge “Batem à Porta”, produção relativamente ousada baseada no
livro “O Chalé no Fim do Mundo”, de Paul Tremblay. Nela, quatro estranhos,
armados, invadem a casa de uma família para revelar que, se os membros dela não
aceitarem fazer um grande sacrifício - uma escolha terrível - virá o apocalipse. Estarão
dispostos a sacrificar-se? Ou antes, os estranhos invasores estão falando a
verdade?
Os quatro cavaleiros do apocalipse
A
família em questão é homoafetiva, formada por Andrew e Eric, e pela garotinha
Wen, adotada por ambos.
Ocorrem,
porém, dois graves problemas – à parte a premissa inicial, que precisa ser
comprada pelo espectador. Direção e roteiro sabotam a hipótese de os quatro
mensageiros do apocalipse estarem mentindo; que tudo que acontece, todo o fuzuê
de fim do mundo, não passa de invenção do grupo, de algum sadismo. A cinematografia
lhes dá um tom solene, quase profético, que fica difícil ao espectador duvidar
da palavra deles e acreditar em quem neles não crê.
Em
segundo lugar, os laços de união e amor da família são pouco trabalhados. Em
flashback ficamos sabendo da relação entre Andrew e Eric, suas lutas, suas
batalhas por aceitação. É pouco. Da forma como é feito, não cria no espectador o
sentimento da tragédia que envolveria o tal sacrifício a impedir o fim do
mundo. Não dá catarse no espectador, não dá tempo dele se envolver com a
família e aí perceber o quanto a decisão que eles têm que tomar é devastadora.
Em
outras palavras, a atenção dada à família falha em comunicar ao espectador o
amor e felicidade que envolvem os três e que serão interrompidos caso escolham o sacrifício.
Um
exemplo de decisão assim está no telefilme “A Tempestade do Século”, de 1999, de
roteiro assinado por Stephen King, na qual o espectador perceberá o quão duro é
tomar decisões que envolvam o destino das pessoas que amamos, em prol de algo
sobrenatural.
Trabalhasse
mais a dúvida e a catarse no espectador – e se fosse com sua família?! – a película
ganharia bastante.
Segue o trailer:
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