sexta-feira, 10 de maio de 2024

Guerra Civil

 

Crítica de filme: Guerra Civil

 

Civil War (2024). De Alex Garland. Com Kirsten Dunst, Wagner Moura, Cailee Spaeny e Stephen Henderson. Ação/Suspense. 109 min.

Num futuro próximo, jornalistas cobrem guerra civil nos Estados Unidos.


Em “Guerra Civil”, o diretor e roteirista Alex Garland (“Ex Machina” e roteiro de “Extermínio”) retrata um futuro próximo no qual estadunidenses estão guerreando contra estadunidenses, tal qual na Guerra de Secessão de 1861-1865. No conflito do século XXI há uma escalada do morticínio e destruição. Em comparação, as novas tecnologias bélicas matam muito mais, bem como o rastro de destruição material causado é muito superior ao conflito do século XIX.

O filme inicia com o presidente norte-americano ensaiando um discurso no qual afirma que suas forças estão vencendo a guerra contra as forças ocidentais, rebeldes, e, dado o nível do ensaio, trata-se de um discurso fora da realidade, falso. Temos aí um simulacro nessa era de falsas verdades e/ou verdades falsas.

Nisso, pula-se para a atuação da imprensa ao cobrir um confronto entre forças policiais e civis, indicando que o caos domina. Lee (Kirsten Dunst) e Joel (Wagner Moura) cobrem os conflitos onde e quando estão acontecendo. Atuam como correspondentes de guerra sem, dessa vez, precisar viajar para outro país; os tiros, granadas, sangue e morte estão na pátria deles.

Mas o que levaria os Estados Unidos a uma guerra civil, em que irmãos matam irmãos? A Guerra de Secessão é bem estudada e documentada pela historiografia, sabemos suas causas e circunstâncias. Alex Garfield não deixa claro aqui, porém é cristalino em retratar uma nação polarizada; insinua ainda, a conduta do chefe do poder executivo como culpada pela guerra. Se mirou nos Estados Unidos de Donald Trump (invasão do capitólio, denúncias não comprovadas de fraudes nas urnas, discurso negacionista sobre vacina etc.) acertou em cheio, também, no Brasil sob Jair Bolsonaro, que pratica a cultura do “ou nós ou eles”, dos “homens de bem”, da intolerância, das armas, da truculência, da invasão à esplanada dos ministérios e do apego ao poder a qualquer custo, seja por meio eleitoral, seja por um golpe de Estado. Começava a se delinear no Brasil um confronto entre o Nordeste – majoritariamente eleitor de Lula – e o Centro-Sul – majoritariamente bolsonarista. Nordestinos sofreram muito preconceito no pleito de 2022, com postagens do tipo “As praias do Nordeste são lindas, mas não viaje para lá, eles votam em ladrão”. Não esqueçamos do vereador gaúcho discursando na tribuna para seus conterrâneos não contratarem mão-de-obra baiana, porque eles não gostam de trabalhar, só sabem tocar tambor e qualquer má condição oferecida pelo empregador já reclamam e exageram como trabalho análogo à escravidão. O nível é daí para pior... Não parece, pois, aleatória a escolha de Wagner Moura, brasileiro, para um dos papéis principais do filme; é um alerta para nós, brazucas.



Com a polarização, pessoas que não se sentem representadas, de extrema esquerda e extrema direita, sentem-se livres para discurso de ódio, que, ultimamente, vem muito mais da direita, diga-se. Em “Guerra Civil” esse discurso é o conservador, na medida dos norte-americanos brancos, saxões, que idolatram armas, como os denunciados por Michael Moore em “Tiros em Columbine”.

Torturar e matar apenas por não seguir sua linha ideológica tem seu corolário no personagem de Jesse Plemmons, quando pergunta a reféns de onde são e, conforme a resposta, atira sem cerimônia. “Você é de onde?” – “Hong Kong” – “Hong Kong é China, você é chinês” – e pronto, mata. Lembremos da antipatia dos Republicanos pela potência “comunista”.

Assim, a atividade dos jornalistas soa secundária ao pano de fundo, exceto talvez por Lee que, já tendo coberto inúmeros conflitos e fotografado tantas atrocidades, é reconhecida pelos seus pares como muito competente. A personagem, a partir de determinado momento, começa a viver uma crise existencial, depois de dizer, no princípio, que tira suas fotos para que as pessoas (leitores, espectadores) tomem suas conclusões, devendo ela ser isenta, isto é, não se atingir, pelo que acontece ao redor enquanto trabalha. Repetindo, o prosseguimento da carnificina mexe com a personagem e ela questiona, em meio ao caos, seu próprio trabalho, o porquê de tudo isso, coisa que a jornalista iniciante que a acompanha, Jessie (Cailee Spaeny), depois de um choque inicial, parece não dar a mínima, arriscando-se, a todo momento, para pegar o click perfeito. Assim, a personagem de Jessie ilustra que predomina, depois que nos acostumamos com a barbárie, a indiferença. Jessie age como Lee no começo de sua carreira.

Por vermos jornalistas se arriscando – e alguns morrendo – cobrindo a guerra entre Israel e a Faixa de Gaza, mas, principalmente, pela polarização e ascensão da direita que prega “pátria, família e liberdade”, aqui, nos Estados Unidos e em outros países, que “Guerra Civil” é um filme atual e preciosíssimo, necessário como discussão para sabermos até onde essa onda pode levar a civilização.

Cotação: ««««

(l - Ruim; «- Regular; ««- Bom; «««- Muito bom; ««««- Ótimo; «««««- Excelente)





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