domingo, 7 de julho de 2024

Clube dos Vândalos

 Crítica de filme: Clube dos Vândalos

 

The Bikeriders. De Jeff Nichols. Com Jodie Comer, Tom Hardy e Austin Butler. Drama. 116 min.

 

Começo, meio e fim de clube de motoqueiros norte-americanos, entre o fim dos 60 e início dos 70.


Nos anos 60 do século passado a historiografia aponta a “contracultura”, cujos símbolos são o jeans, o rock and roll, a rebeldia estudantil, os hippies, a liberação sexual, o feminismo, a luta pelos direitos civis nos Estados Norte-Americanos onde se praticava a segregação racial contra afrodescendentes, etc. Coisas que as gerações millenial e Z acham naturais, normais, tiveram gestação antiga e possuem todo um contexto histórico.

Se atualmente a maioria das pessoas que dirige motos o faz por economia – as motocicletas são bem mais baratas que um carro e de menor custo de manutenção – e para driblar engarrafamentos, nos anos 60 e 70, nos Estados Unidos, pilotar moto era associado à rebeldia, a querer ser livre, a não ter amarras, a ser arruaceiro. Os clubes de motoqueiros, assim, formavam um dos elementos de contestação de tudo isso que viria a ser rotulado como contracultura ao tradicional - família, trabalho e religião como únicas bases da sociedade.


É aí que pessoas que não se encaixavam no “american way of life” ou foram dele extirpados, encontravam refúgio. No “Clube dos Vândalos” motoqueiros de Harley-Davidson e assemelhadas e motos customizadas se reúnem para beber, passear de moto, infringir leis de trânsito e, porque não, arrumar confusão. O clube é fundado depois do surgimento do agrupamento, tendo Johnny (Tom Hardy) como presidente.

Embora a palavra “refúgio” denote um lugar tranquilo, isso não se aplica ao “Clube dos Vândalos”, no sentido usual que se tem do termo. À mesma coisa se diz de seus “piqueniques” regados a álcool, cigarro. Nada de “A Noviça Rebelde”. O espectador perceberá isso desde a primeira cena, em que Benny (Austin Butler), envolve-se numa briga de bar por recusar tirar a jaqueta do clube.

A narrativa se baseia no relato que Kathy (Jodie Comer, muito boa em cena), esposa de Benny, dá a um rapaz que estuda o movimento. Por ela sabemos quem é quem, como tudo começou, tanto pelo olhar feminino, quanto pelo de um estudioso.

O elenco, em geral, é muito bom. O trio Tom Hardy, Austin Butler e Jodie Colmer está particularmente fantástico. Se houvesse uma categoria do Oscar para “melhor elenco”, certamente “Clube dos Vândalos” estaria indicado.

Aos poucos o filme deixa entrever seus personagens, suas relações de amizade, afeto, companheirismo e pertencimento ou despertencimento.

O “Clube dos Vândalos” vê em poucos anos seu início, expansão para outros estados e declínio. As relações humanas brutas, duras, mas verdadeiras, cedem aos poucos, à criminalidade. Nesse aspecto da contracultura vai conhecendo sua ressaca. O sonho, a miragem, choca-se com a realidade daquilo que foi construído aos poucos e vai-se desvanecendo. Então o choro de um dos principais personagens, ao fim, fará sentido.

 

Cotação: «««

(l - Ruim; «- Regular; ««- Bom; «««- Muito bom; ««««- Ótimo; «««««- Excelente)



sexta-feira, 7 de junho de 2024

Furiosa: uma Saga Mad Max

Crítica de filme: Furiosa: Uma Saga Mad Max

 

Furiosa: A Mad Max Saga (2024). De George Miller. Com Anya Taylor-Joy e Chris Hemsworth. Ação/Aventura. 148 min.

 

Num futuro pós-apocalíptico, garota é sequestrada por senhor de guerra de motocicletas. Ela se tornará general de Immortal Joe.

 

Com “Estrada da Fúria”, de 2015, George Miller superou até a mais alta expectativa dos fãs de Mad Max ao fazer, trinta anos depois, uma terceira continuação. Criou um faroeste movido a gasolina e ao som de roncos de motores, guiados por personagens insanos. Recebeu seis Oscar, sendo o filme mais premiado da cerimônia, não tendo recebido, porém, nem a estatueta de Melhor Filme, que foi para “Spotlight – Segredos Revelados”, nem a de Melhor Diretor, que foi para Alejandro González Iñarritu, de “O Regresso”.


O filme australiano é ação do começo ao fim, com sua estória se passando num breve intervalo de tempo, preenchido, em boa parte, por perseguições no deserto.

Assim, desde que anunciadas, as expectativas para “Furiosa” se situaram num patamar elevado. Nove anos depois, a personagem de Charlize Theron, Furiosa, que “roubou” o protagonismo de Mad Max em “Estrada da Fúria”, ganhava um filme próprio, com estreia em Cannes.

“Furiosa: Uma Saga Mad Max” mostra a saga desde a infância, ou o mais próximo disso, da Imperatriz Furiosa, grande general de Immortal Joe, que no fim foge com o harém dele para dar uma vida digna às moças, voltando ao lugar onde nasceu. Ela se rebela contra o tirano que oprime o povo das Wastelands – o imenso deserto do interior australiano. O filme começa com Furiosa (Anya Taylor-Joy, no papel que em 2015 foi de Charlize Theron) sendo raptada, adolescente, por Dementus (Chris Hemsworth). Daí, algo difere de “Estrada da Fúria” e dos outros Mad Max: o lapso temporal. Enquanto os demais invocam uma caçada, uma perseguição, uma batalha, aqui temos várias em um intervalo de pelo menos dez, quinze anos. Condensar numa ação eletrizante não é fácil, tarefa que George Miller, roteirista e diretor, tentou fazer. Resultado, o ritmo é eletrizante, mas não tem aquele senso de urgência, de emergência, pois afinal sabemos o destino de Furiosa. Bem ou mal, “Furiosa: Uma Saga Mad Max” saiu dentro do esperado, ou abaixo, dentro do que é possível fazer em termos de spin-off ou prequel.

George Miller sabe como dirigir cenas de ação, mesmo aos seus setenta e poucos anos. Mas é inevitável que “Furiosa”, com todo o esforço, perca frente a “Estrada da Fúria”, mesmo com mais combates, mais perseguições, tiros, mortes, veículos, explosões, correspondendo a quase duas horas e meia de projeção. O centro de interesse ficou mais diluído que em qualquer película da franquia, ou talvez superior apenas ao terceiro filme, mas, ainda assim, vale a sessão.

Um exemplo de como a diluição prejudicou a narrativa é a relação entre Furiosa e Pretorian Jack (Tom Burke). Estariam eles apaixonados? Haveria mais que amizade entre os dois? Seria apenas companheirismo entre guerreiros de alta hierarquia? O filme não foca. Na verdade, Pretorian Jack, para mim, soou mais como um Mad Max genérico.

O maior vilão da vez é Dementus (Chris Hemsworth) que rapta Furiosa de um verde vale no meio do deserto e, junto com sua gangue, desafia o poder de Immortal Joe na Refinaria, na Cidade da Bala e mesmo na Cidadela. O personagem Dementus é mais fanfarrão que amedrontador. Chris Hemsworth não me parece à altura do papel, ter feito Thor tantas vezes – e um Thor mais próximo da comédia do que se espera de um Deus – prejudicou-lhe em termos de atuação. Nem sempre dá para levar o personagem Dementus a sério.

A personagem Furiosa, quando criança, é feita por Alyla Browne. Anya Taylor-Joy pegou um papel difícil, que é o de fazê-la no início da fase adulta. Temos que sua interpretação, quase sem palavras, não tem a força da de Charlize Theron. Achei a atriz sul-africana imbatível nesse aspecto. Se Anya Taylor-Joy vai se tornar uma grande atriz, ou uma Milla Jovovich, não dá para dizer.




Cotação: ««

(l - Ruim; «- Regular; ««- Bom; «««- Muito bom; ««««- Ótimo; «««««- Excelente)



sexta-feira, 10 de maio de 2024

Guerra Civil

 

Crítica de filme: Guerra Civil

 

Civil War (2024). De Alex Garland. Com Kirsten Dunst, Wagner Moura, Cailee Spaeny e Stephen Henderson. Ação/Suspense. 109 min.

Num futuro próximo, jornalistas cobrem guerra civil nos Estados Unidos.


Em “Guerra Civil”, o diretor e roteirista Alex Garland (“Ex Machina” e roteiro de “Extermínio”) retrata um futuro próximo no qual estadunidenses estão guerreando contra estadunidenses, tal qual na Guerra de Secessão de 1861-1865. No conflito do século XXI há uma escalada do morticínio e destruição. Em comparação, as novas tecnologias bélicas matam muito mais, bem como o rastro de destruição material causado é muito superior ao conflito do século XIX.

O filme inicia com o presidente norte-americano ensaiando um discurso no qual afirma que suas forças estão vencendo a guerra contra as forças ocidentais, rebeldes, e, dado o nível do ensaio, trata-se de um discurso fora da realidade, falso. Temos aí um simulacro nessa era de falsas verdades e/ou verdades falsas.

Nisso, pula-se para a atuação da imprensa ao cobrir um confronto entre forças policiais e civis, indicando que o caos domina. Lee (Kirsten Dunst) e Joel (Wagner Moura) cobrem os conflitos onde e quando estão acontecendo. Atuam como correspondentes de guerra sem, dessa vez, precisar viajar para outro país; os tiros, granadas, sangue e morte estão na pátria deles.

Mas o que levaria os Estados Unidos a uma guerra civil, em que irmãos matam irmãos? A Guerra de Secessão é bem estudada e documentada pela historiografia, sabemos suas causas e circunstâncias. Alex Garfield não deixa claro aqui, porém é cristalino em retratar uma nação polarizada; insinua ainda, a conduta do chefe do poder executivo como culpada pela guerra. Se mirou nos Estados Unidos de Donald Trump (invasão do capitólio, denúncias não comprovadas de fraudes nas urnas, discurso negacionista sobre vacina etc.) acertou em cheio, também, no Brasil sob Jair Bolsonaro, que pratica a cultura do “ou nós ou eles”, dos “homens de bem”, da intolerância, das armas, da truculência, da invasão à esplanada dos ministérios e do apego ao poder a qualquer custo, seja por meio eleitoral, seja por um golpe de Estado. Começava a se delinear no Brasil um confronto entre o Nordeste – majoritariamente eleitor de Lula – e o Centro-Sul – majoritariamente bolsonarista. Nordestinos sofreram muito preconceito no pleito de 2022, com postagens do tipo “As praias do Nordeste são lindas, mas não viaje para lá, eles votam em ladrão”. Não esqueçamos do vereador gaúcho discursando na tribuna para seus conterrâneos não contratarem mão-de-obra baiana, porque eles não gostam de trabalhar, só sabem tocar tambor e qualquer má condição oferecida pelo empregador já reclamam e exageram como trabalho análogo à escravidão. O nível é daí para pior... Não parece, pois, aleatória a escolha de Wagner Moura, brasileiro, para um dos papéis principais do filme; é um alerta para nós, brazucas.



Com a polarização, pessoas que não se sentem representadas, de extrema esquerda e extrema direita, sentem-se livres para discurso de ódio, que, ultimamente, vem muito mais da direita, diga-se. Em “Guerra Civil” esse discurso é o conservador, na medida dos norte-americanos brancos, saxões, que idolatram armas, como os denunciados por Michael Moore em “Tiros em Columbine”.

Torturar e matar apenas por não seguir sua linha ideológica tem seu corolário no personagem de Jesse Plemmons, quando pergunta a reféns de onde são e, conforme a resposta, atira sem cerimônia. “Você é de onde?” – “Hong Kong” – “Hong Kong é China, você é chinês” – e pronto, mata. Lembremos da antipatia dos Republicanos pela potência “comunista”.

Assim, a atividade dos jornalistas soa secundária ao pano de fundo, exceto talvez por Lee que, já tendo coberto inúmeros conflitos e fotografado tantas atrocidades, é reconhecida pelos seus pares como muito competente. A personagem, a partir de determinado momento, começa a viver uma crise existencial, depois de dizer, no princípio, que tira suas fotos para que as pessoas (leitores, espectadores) tomem suas conclusões, devendo ela ser isenta, isto é, não se atingir, pelo que acontece ao redor enquanto trabalha. Repetindo, o prosseguimento da carnificina mexe com a personagem e ela questiona, em meio ao caos, seu próprio trabalho, o porquê de tudo isso, coisa que a jornalista iniciante que a acompanha, Jessie (Cailee Spaeny), depois de um choque inicial, parece não dar a mínima, arriscando-se, a todo momento, para pegar o click perfeito. Assim, a personagem de Jessie ilustra que predomina, depois que nos acostumamos com a barbárie, a indiferença. Jessie age como Lee no começo de sua carreira.

Por vermos jornalistas se arriscando – e alguns morrendo – cobrindo a guerra entre Israel e a Faixa de Gaza, mas, principalmente, pela polarização e ascensão da direita que prega “pátria, família e liberdade”, aqui, nos Estados Unidos e em outros países, que “Guerra Civil” é um filme atual e preciosíssimo, necessário como discussão para sabermos até onde essa onda pode levar a civilização.

Cotação: ««««

(l - Ruim; «- Regular; ««- Bom; «««- Muito bom; ««««- Ótimo; «««««- Excelente)





quarta-feira, 31 de janeiro de 2024

Pare com suas mentiras

Crítica de filme: Pare Com Suas Mentiras

Pare Com Suas Mentiras (Arrête Avec Tes Mensonges). Direção: Olivier Peyon. Roteiro: Olivier Peyon, baseado no romance de Philippe Besson. Com: Guillaume de Toquédec, Victor Belmondo, Guilaine Londez, Jérémy Gillet e Julien De Saint Jean. Drama. 2022.

 

Escritor gay retorna à cidade onde nasceu para ser homenageado. Lá relembra seu primeiro amor, quando tinha 17 anos.

 




Quando o escritor Stéphane Belcourt aceita voltar depois de vinte e tantos anos à pequena cidade de Cognac, sabe que terá que lidar com seu passado. A causa do retorno é boa: ele será homenageado pela prefeitura local, graças a romances de sucesso. Mas isso significa também relembrar uma antiga paixão, entre ele e Thomas, ambos com 17 anos em 1984. Essa paixão influenciou muito seus escritos – suas histórias – e ainda hoje traz mais perguntas que respostas. Encontrar respostas, revisitando o passado: é sobre isso o filme.

Porém nada é maniqueísta, pois falamos de pessoas, sentimentos, de ser gay em 1984, que é, convenhamos, muito diferente de o ser hoje, pelo menos no Ocidente. Entre o presente e flashbacks do passado, o roteiro fornece pequenas pistas que levam a revelações maiores, ao seguir a jornada atual e pretérita de um homem que nunca esqueceu seu primeiro amor e, também, nunca de fato o entendeu.

Algumas vezes a direção mostra o jovem e o atual Belcourt lado a lado, num mesmo plano, numa ideia positiva, que é dizer da importância daquilo que lembramos. Stéphane Belcourt nunca deixou de retratar em seus livros, ainda que indiretamente, Thomas. Seu parceiro permanece tão longe, tão perto, ora a uma lembrança distante, ora bem ali, do lado. Depende de onde esteja e do estado de espírito.

A presença do jovem e enigmático guia de excursão Lucas (Victor Belmondo, neto de Jean Paul) aumenta a intensão da experiência para Belcourt.



Sobre escrever, saber viver, lidar com preconceitos internos e externos, aceitar a própria sexualidade, nos belíssimos campos da zona rural da França só ampliam a delicadeza que textos de retorno ao idílico trazem. Estamos na terra do conhaque, afinal (Cognac). Sua beleza captada nas câmeras valoriza os sentimentos despertados nos personagens e, por que não, no espectador.

 

Cotação: «««

(l - Ruim; «- Regular; ««- Bom; «««- Muito bom; ««««- Ótimo; «««««- Excelente)




quinta-feira, 2 de março de 2023

Batem à Porta

 Crítica de filme: Batem à Porta

Knock at the Cabin (Estados Unidos, 2023). De M. Night Shyamalan. Com Dave Bautista, Bem Aldridge e Jonathan Groff. Suspense / terror.

 

Família é feita refém por estranhos armados, dizendo que se ela não fizer um sacrifício, acontecerá o apocalipse.

“Falem mal, mas falem de mim”. Isso parece se aplicar à carreira do roteirista e diretor M. Night Shyamalan, cujos filmes sempre geram grande quantidade de comentários, variando entre os muito positivos e os muito negativos.

O cineasta indiano estourou no longínquo 1999, com “O Sexto Sentido”, apenas seu segundo longa em Hollywood. O filme foi sucesso absoluto: concorreu aos Oscar de Filme, Direção, Roteiro Original e a mais três categorias, deu uma bilheteria imensa e notabilizou-se por um “plot twist” que pega em cheio o espectador, mas faz todo sentido. A surpresa, a revelação, a reviravolta - aquele impacto - passou a ser a marca registrada do cineasta em seus filmes posteriores, para o bem e para o mal.

Bem verdade que suas obras posteriores – “Corpo Fechado”, “Sinais” e “A Vila” – fizeram sombra ao sucesso inicial e acenderam as primeiras críticas negativas ao estilo ousado de Shyamalan, caracterizado por pregar peça no espectador com os ditos “plot twists”. As críticas negativas, porém, atingiram o ápice com obras menos pessoais, como “O Último Mestre do Ar” e “Depois da Terra”, de 2010 e 2013, respectivamente. São duas produções comerciais caras bancadas por Hollywood que fracassaram retumbantemente, mas que, a defender seu realizador, não contém sua marca autoral.

Mas Shyamalan não se deixou abater, continuou fazendo cinema, porém mais discretamente, atraindo bem menos atenção que no início dos anos 2000, de forma que suas obras nunca alcançaram o mesmo retorno que no início da carreira, dada a sequência de equívocos cometidos.

Eis que em 2023 surge “Batem à Porta”, produção relativamente ousada baseada no livro “O Chalé no Fim do Mundo”, de Paul Tremblay. Nela, quatro estranhos, armados, invadem a casa de uma família para revelar que, se os membros dela não aceitarem fazer um grande sacrifício - uma escolha terrível - virá o apocalipse. Estarão dispostos a sacrificar-se? Ou antes, os estranhos invasores estão falando a verdade?


Os quatro cavaleiros do apocalipse


A família em questão é homoafetiva, formada por Andrew e Eric, e pela garotinha Wen, adotada por ambos.

Ocorrem, porém, dois graves problemas – à parte a premissa inicial, que precisa ser comprada pelo espectador. Direção e roteiro sabotam a hipótese de os quatro mensageiros do apocalipse estarem mentindo; que tudo que acontece, todo o fuzuê de fim do mundo, não passa de invenção do grupo, de algum sadismo. A cinematografia lhes dá um tom solene, quase profético, que fica difícil ao espectador duvidar da palavra deles e acreditar em quem neles não crê.

Em segundo lugar, os laços de união e amor da família são pouco trabalhados. Em flashback ficamos sabendo da relação entre Andrew e Eric, suas lutas, suas batalhas por aceitação. É pouco. Da forma como é feito, não cria no espectador o sentimento da tragédia que envolveria o tal sacrifício a impedir o fim do mundo. Não dá catarse no espectador, não dá tempo dele se envolver com a família e aí perceber o quanto a decisão que eles têm que tomar é devastadora.

Em outras palavras, a atenção dada à família falha em comunicar ao espectador o amor e felicidade que envolvem os três e que serão interrompidos caso escolham o sacrifício.

Um exemplo de decisão assim está no telefilme “A Tempestade do Século”, de 1999, de roteiro assinado por Stephen King, na qual o espectador perceberá o quão duro é tomar decisões que envolvam o destino das pessoas que amamos, em prol de algo sobrenatural.

Trabalhasse mais a dúvida e a catarse no espectador – e se fosse com sua família?! – a película ganharia bastante.

Segue o trailer:


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terça-feira, 6 de dezembro de 2022

Até os Ossos

Crítica de filme: Até os Ossos

Bones and All (Estados Unidos, 2022). De Luca Guadagnino. Com Timothée Chalamet, Taylor Russel e Mark Rilance. Drama/Terror.

 

Garota de dezoito anos que se descobre viciada em carne humana se apaixona por rapaz com a mesma característica.


Muito se esperava do diretor Luca Guadagnino após seus bem-sucedidos “Me Chame Pelo Seu Nome” e “Suspiria – A Dança do Medo”. No segundo, de 2018, ele trouxe nova visão ao conciliábulo de bruxas dono de renomada escola de balé, diferente da do filme “giallo” original de Dario Argento, dos anos setenta. Fez uma refilmagem das que valem a pena e que valorizam tanto a obra original, quanto a obra revisada. Esta dá enfoque na disputa interna de poder do conciliábulo, e aquela nas cores, sensações e sons – um filme muito sensorial.

Sua incursão pelo terror não convencional dá para perceber pelo trailer. O de “Até os Ossos” dá ideia de um romance marginal entre Maren (Taylor Russel) e Lee (Timothée Chalamet, sedutor como sempre). Com a diferença de que esse romance envolve sangue, canibalismo. Surge então a expectativa de um filme autoral, com algo por trás difícil de digerir – perdoe o trocadilho.

Logo no começo, a mocinha Maren descobre que sente atração por devorar carne humana fresca. Em busca de sentido na vida depois de abandonada pelo pai, Maren viaja pelo meio-Oeste em busca da mãe que nunca conheceu e sobre quem nada sabe e descobre que existem pessoas iguais a ela, chamadas “eaters” (devoradores). Não são zumbis, são pessoas (creio), vivas, que têm um apetite incontrolável por carne humana, bem como um olfato extremamente apurado que lhes permite reconhecer-se entre si e sentir o cheiro da morte próxima a quilômetros de distância.

O diretor não economiza em cenas fortes, mas não as sensacionaliza nem sobrenaturaliza. Age com naturalidade no canibalismo, dentro do que é possível. O problema da projeção começa quando o roteiro vai se transformando de um meio que terror para um romance road-movie entre Maren e Lee, ambos devoradores que se cruzam e se apaixonam. Uma quebra e esquecimento de paradigmas e questões anteriores ao início da projeção vai ocorrendo. Questões do que é ser um devorador e como é possível ter uma vida normal sendo assim, até que ponto é certo matar pessoas pra se alimentar, se vale a pena viver uma vida dessas etc. são postas.

Numa segunda quebra, direção e roteiro “esquecem” aquelas questões tão caras antes para gerar um clímax fraco. E que subaproveita o personagem de Mark Rilance, o primeiro “eater” com quem a protagonista entra em contato.

Lee e Maren em meio à paisagem descampada do Meio-Oeste

Jim Jarmusch viu os vampiros de uma forma humanista – e até patética - em “Amantes Eternos”, e se considerarmos os “devoradores” como zumbis vivos, Guadagnino e o roteirista David Kajganich abrem as portas para uma visão mais holística e humanística dessas criaturas. Dizendo de outra forma, é louvável como o cinema é capaz de expandir um conceito ou ideia e dar a ele novos contornos artísticos, mesmo quando baseado num romance, no caso, o homônimo de Camille De Angelis.

Mas dois filmes mais simples e menos ambiciosos artisticamente que este “Até os Ossos”, que também envolvem comer carne humana, me parecem mais atrativos. São eles “Raw”, produção francesa de 2016 sobre jovem caloura no curso de veterinária que, após um trote na faculdade, descobre sentir esse gostinho especial; e “Somos o que Somos”, película de 2013 em que família isolada formada por pai e duas jovens filhas, controlada pelo patriarca com mão de ferro, guarda segredos quanto à sua tradição alimentar. São filmes menores, do tamanho de casinha de sapê perto da mansão que Guadagnino ousou realizar.

Segue o trailer:


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quarta-feira, 30 de novembro de 2022

O Golpista do Ano

Crítica de filme: O Golpista do Ano

I Love You Phillip Morris (Estados Unidos, 2010). De Glen Ficarra e John Requa. Com Jim Carrey, Ewan McGregor, Leslie Mann, Rodrigo Santoro. Comédia / Drama.

 

Policial sofre acidente e quase morre. Depois, assume ser gay e se torna estelionatário.

Às vezes assistimos filmes ou séries sem estar no “mood” (humor) para tal. Nossa consciência está longe pensando nalguma coisa, certa preocupação nos afeta, estamos ansiosos, sonolentos, sem vontade de ver esse ou aquele gênero na ocasião, com vontade de fazer outra coisa que não ficar na frente de uma tela, ou, ainda, o problema pode estar na companhia errada. Situações assim, comuns a todos, afetarão o quanto gostaremos do que assistirmos. E mais, o quanto nos disporemos a apreciar a projeção.

Por isso é importante ter cuidado ao analisar uma obra nesses quebrantes. Esse foi o caso de “O Golpista do Ano”, que assisti sem vontade, e cujo tempo de projeção só me fez desgostar mais e mais do que via.

Jim Carrey é Steven Russel, um policial casado com mulher que sofre acidente de carro e após, se assume homossexual e passa a viver de fraudes e golpes. Dali em diante, ele mesmo diz, será uma “bichona”. Usará identidades e cartões de crédito falsos, se passará por advogado, financista etc. e procurará dar ao seu parceiro um alto padrão de vida, algo que o emprego de policial não possibilita. Preso, apaixona-se por um colega de presídio, chamado Phillip Morris (Ewan McGregor), condenado “light” por fraude contra seguro, e os dois começam um relacionamento. Um verdadeiro amor.

Para começar, Jim Carrey tem os mesmos trejeitos no rosto e no corpo de outras interpretações suas. Em nenhum momento ele me pareceu um homossexual; o ator interpreta como se estivesse numa de suas comédias usuais, escrachadas, cheia de caras, bocas e andar disforme. Sua química com Ewan McGregor – que é esforçado, e só – é inexistente. Não rola química, física, matemática etc. em outras palavras.

Já bastasse o título original (em livre tradução “Eu Te Amo Phillip Morris”) ter sido mutilado para “O Golpista do Ano”, vemos a encrenca que é um título que fala de amor verdadeiro de um completo picareta gay por outro, não ter química de amor/paixão avassaladora. Nem de comédia, pois os parcos momentos são de riso amarelo. O roteiro, assinado pela dupla de diretores, não se decide entre drama, comédia, aventura, amor LGBTQIA+. Dá errado em todos esses gêneros a que se propõe, de toques de drama a cenas de perseguição policial.

A saga de golpes, prisões e escapadas do personagem principal é mal contada. Inspirada em fatos reais, revela artimanhas pueris, muitas vezes difíceis de engolir.

Rodrigo Santoro faz um pequeno papel; não se compromete em sua atuação. Mas da mesma forma que se dá com Ewan McGregor, não gera química como par romântico com Jim Carrey. Um exemplo de atuação gay de um comediante, não afetada, mas não de todo discreta, é a de Robin Willians em “A Gaiola das Loucas”. Ele e Nathan Lane estão ótimos, fazem uma super dupla. Pudera, além do talento de ambos, a direção é do mestre Mike Nichols.

Segue o trailer:


Cotação: l

(l - Ruim; «- Regular; ««- Bom; «««- Muito bom; ««««- Ótimo; «««««- Excelente)

Clube dos Vândalos

  Crítica de filme:  Clube dos Vândalos   The Bikeriders. De Jeff Nichols. Com Jodie Comer, Tom Hardy e Austin Butler. Drama. 116 min. ...