Crítica
de filme: Paraíso: Amor
Paradies:
Lieb (Alemanha/Áustria/França, 2012). De Ulrich Siedl. Com Margarete Tiesel,
Inge Maux e Peter Kuzungu. Drama.
Mulheres
europeias de meia idade vão a resort no Quênia em busca de sexo.
A
personagem principal, a austríaca Teresa (Margarete Tiesel), vai passar férias num
resort no Quênia, para junto com outras cinquentonas brancas desfrutar do sexo
que os homens quenianos têm a oferecer.
Os
turistas europeus são recebidos com canções e danças típicas do país. Porém,
esse exotismo, esse encantamento, essa diversão turística nada tem de inocente,
ao contrário do que as palavras em suaíli “hujambo” (olá) e “hakuna-matata”
(está tudo bem), as primeiras ensinadas pelo guia aos visitantes, querem dizer.
Nessa não-maldade o diretor e co-roteirista Ulrich Seidl percebe que existe
“algo de podre no reino da Dinamarca” ou, como se diz no jargão acadêmico, problematiza
a questão – sem nunca ser chato, diga-se. Logo, logo as condutas relevam-se
nada desprovidas de malícia e evidenciam o inseparável elo
racismo-capitalismo-colonialismo (não necessariamente nessa ordem).
Teresa
comenta que são muitos os negros, eles lhe parecem todos iguais, não os sabe
diferenciar, ao passo que sua amiga mais experiente responde: “eu os distingo
pela altura”. As duas conversam em alemão que determinado funcionário do hotel
tem a pele brilhosa como gordura de porco. Elas gargalham, ele sorri sem
entender. E o espectador fica entre o constrangimento e o riso.
A
secção Europa-África não se dá apenas pela cor da pele. Se dá pelo dinheiro
também. São os turistas que mandam, são deles a grana, o capital. O resort é
pago; obviamente, custa caro. Lá dentro se está protegido por muros e guardas.
Estes separam o Quênia dos turistas europeus do Quênia dos quenianos. Os únicos
negros no resort são empregados, serviçais; brancões, só os hóspedes. Mas basta
ultrapassar a “área de proteção” que negros a pé, bicicleta ou moto aparecem
aos montes, insistentes como só.
Sabe quando uma imagem vale mais que mil palavras?
Alguns
deles, geralmente mais comunicativos, são homens em busca de uma “sugar mamma”:
uma coroa branca e com grana em busca de companhia e sexo. Aí põe-se uma
questão: os quenianos não são passivos, nem meros coitadinhos, são homens com
artimanhas, tentam jogar o jogo a seu favor. É do tipo: “vamos dizer que as
amamos, mas vamos fazer com que nos paguem”. Existe todo um jogo de interesses
em questão.
Teresa viaja a um lugar onde é forte o turismo sexual (que só pode existir num país pobre e na base da exploração, predação, ou, dito de outra forma, através da desigualdade). Lembremos o que um deputado - cassado - disse em missão oficial: as mulheres ucranianas “são fáceis, porque elas são pobres”.
Mas Teresa anseia por um romance; só sexo carnal não basta. Seu paraíso é o amor – daí o título. É o amor que ela verdadeiramente busca, já que não o recebe de sua filha adolescente ou de mais ninguém, em sua terra natal. Ela é carente. Como ela mesma diz, “você quer ser vista como um ser humano, e não só como um corpo, com tetas caídas (...) rugas, pele ruim, bunda gorda. Você quer sentir que é com você. De coração”. É bem aí que Teresa cai na sua própria armadilha. Seu caminho, com pilares no racismo, capitalismo e colonialismo, não dá a redenção necessária ao paraíso. Será que ela não se dá conta disso?
Cotação:
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(l - Ruim;
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Regular; ««- Bom; «««- Muito
bom; ««««-
Ótimo; «««««-
Excelente)
Obs.:
o cineasta austríaco fez uma trilogia. Os outros dois filmes são “Paraíso:
Esperança” e “Paraíso: Fé”.
Segue
o trailer do filme