segunda-feira, 29 de agosto de 2022

Paraíso: Amor

Crítica de filme: Paraíso: Amor

Paradies: Lieb (Alemanha/Áustria/França, 2012). De Ulrich Siedl. Com Margarete Tiesel, Inge Maux e Peter Kuzungu. Drama.

 

Mulheres europeias de meia idade vão a resort no Quênia em busca de sexo.



 

A personagem principal, a austríaca Teresa (Margarete Tiesel), vai passar férias num resort no Quênia, para junto com outras cinquentonas brancas desfrutar do sexo que os homens quenianos têm a oferecer.

Os turistas europeus são recebidos com canções e danças típicas do país. Porém, esse exotismo, esse encantamento, essa diversão turística nada tem de inocente, ao contrário do que as palavras em suaíli “hujambo” (olá) e “hakuna-matata” (está tudo bem), as primeiras ensinadas pelo guia aos visitantes, querem dizer. Nessa não-maldade o diretor e co-roteirista Ulrich Seidl percebe que existe “algo de podre no reino da Dinamarca” ou, como se diz no jargão acadêmico, problematiza a questão – sem nunca ser chato, diga-se. Logo, logo as condutas relevam-se nada desprovidas de malícia e evidenciam o inseparável elo racismo-capitalismo-colonialismo (não necessariamente nessa ordem).

Teresa comenta que são muitos os negros, eles lhe parecem todos iguais, não os sabe diferenciar, ao passo que sua amiga mais experiente responde: “eu os distingo pela altura”. As duas conversam em alemão que determinado funcionário do hotel tem a pele brilhosa como gordura de porco. Elas gargalham, ele sorri sem entender. E o espectador fica entre o constrangimento e o riso.

A secção Europa-África não se dá apenas pela cor da pele. Se dá pelo dinheiro também. São os turistas que mandam, são deles a grana, o capital. O resort é pago; obviamente, custa caro. Lá dentro se está protegido por muros e guardas. Estes separam o Quênia dos turistas europeus do Quênia dos quenianos. Os únicos negros no resort são empregados, serviçais; brancões, só os hóspedes. Mas basta ultrapassar a “área de proteção” que negros a pé, bicicleta ou moto aparecem aos montes, insistentes como só.


      Sabe quando uma imagem vale mais que mil palavras?

Alguns deles, geralmente mais comunicativos, são homens em busca de uma “sugar mamma”: uma coroa branca e com grana em busca de companhia e sexo. Aí põe-se uma questão: os quenianos não são passivos, nem meros coitadinhos, são homens com artimanhas, tentam jogar o jogo a seu favor. É do tipo: “vamos dizer que as amamos, mas vamos fazer com que nos paguem”. Existe todo um jogo de interesses em questão.

Teresa viaja a um lugar onde é forte o turismo sexual (que só pode existir num país pobre e na base da exploração, predação, ou, dito de outra forma, através da desigualdade). Lembremos o que um deputado - cassado - disse em missão oficial: as mulheres ucranianas “são fáceis, porque elas são pobres”.

Mas Teresa anseia por um romance; só sexo carnal não basta. Seu paraíso é o amor – daí o título. É o amor que ela verdadeiramente busca, já que não o recebe de sua filha adolescente ou de mais ninguém, em sua terra natal. Ela é carente. Como ela mesma diz, “você quer ser vista como um ser humano, e não só como um corpo, com tetas caídas (...) rugas, pele ruim, bunda gorda. Você quer sentir que é com você. De coração”. É bem aí que Teresa cai na sua própria armadilha. Seu caminho, com pilares no racismo, capitalismo e colonialismo, não dá a redenção necessária ao paraíso. Será que ela não se dá conta disso?

Cotação: ««««

(l - Ruim; «- Regular; ««- Bom; «««- Muito bom; ««««- Ótimo; «««««- Excelente)

 

Obs.: o cineasta austríaco fez uma trilogia. Os outros dois filmes são “Paraíso: Esperança” e “Paraíso: Fé”.


                                                       Segue o trailer do filme




sábado, 20 de agosto de 2022

De Repente Drag

 De Repente Drag

De Rafaela Gonçalves. Com Ruan do Vale, Brenna Maria, Frimes, Luana Granda, Mônica Moretti, Al Danuzio e Silvero Pereira. Comédia.

Jornalista hetero começa a se apresentar como drag queen para investigar caso.



Produção maranhense que impressiona pela qualidade técnica, mas que não vai além disso: roteiro e direção são limitados.

Nela, Julião (Ruan do Vale) é um repórter fracassado cujo ápice da vergonha se dá entrevistando um senhor numa cadeira de rodas, na fila dum posto de saúde. O cadeirante reclama do péssimo atendimento e levanta-se indo embora, fazendo o repórter virar motivo de piada.

(situação real aconteceu com o repórter da TV Mirante Douglas Pinto, que entrevistava um cadeirante que não conseguia ônibus adaptado e que, por algum motivo – ou milagre - saiu caminhando no meio da entrevista).

Cansado de pagar mico e ser escalado para matérias bobas, Julião e a amiga de trabalho Yasmin acidentalmente cruzam com Lohanny, drag queen vítima de tráfico de pessoas visando prostituição. Os dois passam a investigar o esquema de olho num furo de reportagem que alavanque suas carreiras. Mas, para o plano dar certo, Julião precisa se transformar numa drag e vencer um concurso.

É aí que o hetero nerd/geek passa a conhecer de verdade os mundos LGBTQIA+ e drag. O filme então mostra ao espectador, em tons pedagógicos, coisas como dois homens se beijando, duas mulheres se apaixonando, uma explicação da sexualidade de uma bissexual etc. Lembra-nos também que uma drag queen é um personagem, que não se confunde com a pessoa por trás dela. E que homens heteros, casados e com filhos podem ser drag queens, como conta a drag Pepita Ruiz, interpretada por Silvero Pereira, que faz participação especial.

Esse didatismo do filme se sobrepõe, na medida em que não aprofunda a estória, apenas a arrasta. Enjoam os lamentos e reclamações da conversão do personagem principal em drag e uma cena bem tosca, envolvendo Julião e Pepita Ruiz, soa forçada e didática como telenovela ao mostrar a homofobia dum estereotipado machão.

Ora, a homofobia não está só nos homens machistas, está em várias classes, gêneros etc.

As investigações envolvendo tráfico de pessoas, prostituição e a agência de drags ficam relegadas a segundo plano. O personagem de Silvero Pereira some da película, não aparece mais, fica estranho, sem explicação, pois aparentemente teria uma importância na trama. O que mais preenche a projeção são performances de drag queens que, se de início trazem interesse, cansam pelas repetições (exceção à impagável Mia Cara de Gato) e pela pouca versatilidade nos planos e enquadramentos de filmagem. Fora do show, as drags não fogem da caricatura, repetindo closes, gírias e caras e bocas. Sobram palavras, faltam ações: Julião a certa altura diz mais ou menos que se sente mais forte e poderoso como “Kimberly”, mas fica só no dizer... porque o roteiro não dá a isso consequências.

Vai chegando o clímax e aumenta a sensação de que a roteirista e diretora Rafaela Gonçalves perdeu o controle da obra. E se já dava para pressentir, fica a certeza de que a conclusão não será satisfatória.

Ainda que cheio de falhas, “De Repente Drag” é melhor que muita coisa que vem sendo lançada no streaming.

 

Cotação: «

(l - Ruim; «- Regular; ««- Bom; «««- Muito bom; ««««- Ótimo; «««««- Excelente)

Clube dos Vândalos

  Crítica de filme:  Clube dos Vândalos   The Bikeriders. De Jeff Nichols. Com Jodie Comer, Tom Hardy e Austin Butler. Drama. 116 min. ...