quinta-feira, 27 de outubro de 2022

Um Santo Vizinho

Crítica de filme: Um Santo Vizinho

St. Vincent (Estados Unidos, 2014). De Theodore Melfi. Com Bill Murray, Jaeden Lieberher, Melissa McCarthy e Naomi Watts. Comédia, Drama.

Garoto de doze anos faz amizade com vizinho enrolão e rabugento.


Bill Murray (sempre ótimo) é Vincent, sessentão, resmungão, preconceituoso, alcóolatra, viciado em jogo e metido a esperto que na verdade esconde um bom coração. Maggie (Melissa McCarthy) e seu filho Oliver (Jaeden Lieberher, um achado) se mudam para a casa ao lado da de Vincent, e começam com o pé esquerdo: o carro de Vincent é danificado por uma árvore durante a mudança. Maggie está recém-separada do marido, e determinado dia precisa que Vincent cuide do filho por estar atolada de trabalho. Mãe e filho precisarão contar com o vizinho para reorganizar suas vidas, sem saber que a dele também está uma bagunça. Entre eles se formará uma amizade.

“Um Santo Vizinho” é sensível, dosa bem comédia e drama – mais aquela que esta – constrói ótimos personagens. Faz rir e faz chorar. A estória não cai em clichês; quando achamos que isso ocorrerá, ou que cairá no sentimentalismo, roteiro e direção seguem outro rumo. A comédia não é escrachada, é sutil, e o drama não é dramatizado. Nisso, trata de temas fortes, como vício em jogo e bebida, prostituição, problemas de saúde, desagregação familiar, falta de grana. O faz de forma engraçada e comovente. Provoca catarse no espectador em vários momentos, e se ora leva ao riso, ora leva às lágrimas, é em parte porque os personagens são gente como a gente, são muito próximos, com qualidades e defeitos, e vivem alguns bons momentos e muitos dramas, como parte da vida. A vida é assim gente, bola para frente, a gente erra e tem defeitos, mas vive.



Santos são bonzinhos, mas também levam crianças para apostar em corridas de cavalo

Oliver precisa fazer um trabalho escolar sobre santos. A pergunta: o que é um Santo? A resposta: são pessoas que abrem mão de si para ajudar os próximos.

Em resumo, o filme conta-nos uma história de forma simples e eficiente, nada rocambolesca. A direção tem “timing”, não flui lenta nem apressada, nem dá aos personagens ritmo catatônico.

As “tiradas” do personagem de Bill Murray são impagáveis, são um espetáculo à parte. Logo no começo, os trabalhadores latinos que fazem a mudança de Maggie derrubam acidentalmente um galho no carro de Vincent, e ele cobra a nova vizinha pelo prejuízo. E quando ela responde que tudo bem, que irá arcar com o dano, ele diz: “que nada, você não tem dinheiro” – em outras palavras, “tu tens cara de lisa”. Assim é Vincent: late mas hesita em morder. Outro diálogo engraçadíssimo, que vale a pena mencionar, é entre ele e o rapazinho, que tentarei reproduzir. O menino sofre bullying no colégio e apanha, e Vincent diz que ele precisa brigar, bater. O menino responde: “se o senhor não percebeu, eu sou pequeno para minha idade” – “E daí? Hitler também era pequeno” – “Essa é a comparação mais estúpida que já ouvi na vida!”. Mais uma – a última, prometo. Alguém pergunta a Vincent: “O que tem nessa caixa?” – “A minha esposa” – “O que aconteceu com ela” – “Ela encolheu e agora mora dentro”. 

Vale mencionar o "sushi" que Vincent dá de lanche a Oliver.

Vincent cantando “A Shelter in the Storm”, de Bob Dylan, na cena final, enquanto molha as plantas, é sensacional, coroando um personagem e uma atuação.


Se houvesse alguma categoria para o Oscar chamada “melhor elenco” – coisa que a Academia vem cogitando faz alguns anos - “St. Vicent” se candidataria. Além dos três mencionados, temos Naomi Watts como uma prostituta grávida, Chris O’dowd como o professor do garoto e Terrence Howard como um agiota. Todos ótimos, o elenco, todo, afinado.

É este um filme a ser guardado, uma bela surpresa, que não recebeu o devido reconhecimento. Foi indicado ao Globo de Ouro de melhor filme e ator de comédia/musical (Bill Murray).

 

Cotação: ««««

(l - Ruim; «- Regular; ««- Bom; «««- Muito bom; ««««- Ótimo; «««««- Excelente)

 

Obs: “Um Santo Vizinho” se tornou um dos meus filmes prediletos. Indiquei ele a várias pessoas e todas curtiram. E se eu já gostava do Bill Murray, depois de vê-lo aqui, ele se tornou meu ator favorito. Sua nota no IMDB é um bom 7,2, com pouco mais de 104 mil votos em 2022.

Obs: Lembra – um pouco – “Gran Torino”, ótimo drama do mestre Clint Eastwood, de 2008. Mas Clint pega no drama e Theodore Melfi na comédia.

quinta-feira, 6 de outubro de 2022

Vida de Cachorro

Crítica de filme: Vida de Cachorro

A Dog’s Life (Estados Unidos, 1918). De Charles Chaplin. Com Charles Chaplin, Edna Purviance, Syd Chaplin, Tom Wilson. Comédia.

 

O vagabundo Carlitos adota cachorro e ajuda cantora humilhada pelo patrão.

Chaplin e o cãozinho scraps. Muito fofos.

O vagabundo Carlitos, sempre em briga com a polícia, encontra um cachorrinho atacado por outros e o adota. Depois, ajuda uma cantora maltratada pelo seu patrão. Neste curta de 33 minutos, escrito, dirigido, produzido e estrelado por Charles Chaplin, já dá para perceber os elementos mais significantes de sua filmografia como Carlitos. Temos este, esperto e atrapalhado, de coração de ouro, ajudando os que são humilhados e oprimidos, numa época em que a vida humana valia tão pouco – o período entre-guerras.

Esses elementos seriam mais desenvolvidos em obras posteriores e nos longas metragens de Chaplin. Falta, talvez, um pouco mais da participação do cãozinho, mas a interação entre ele e Chaplin é cômica e singela, e o humor é sempre abundante. Momentos de comédia? Muitos. Carlitos dando leite para o cachorro, entrando com ele escondido no salão de dança, escapando dos policiais na cerca, enganando o bandido fazendo o outro de marionete, são alguns.

Como vimos, duas das características de seu cinema são a comicidade e a empatia em benefício daqueles que clamam por socorro. Assim, “A Dog’s Life” é ótima forma de apreciar a genialidade de um dos grandes nomes do cinema.


Cotação: ««««

(l - Ruim; «- Regular; ««- Bom; «««- Muito bom; ««««- Ótimo; «««««- Excelente)



segunda-feira, 3 de outubro de 2022

A Mulher Rei

Crítica de filme: A Mulher Rei

The Woman King (Canadá/Estados Unidos, 2022). De Gina Prince-Bythewood. Com Viola Davis, Thuso Mbedu, John Boyega, Lashana Lynch e Sheila Atim. Ação, Drama, Histórico.

 

No século XIX, no reino de Daomé, África Ocidental, a general Nanisca treina um grupo de soldados mulheres.






Viola Davis domina com sua personagem cada vez que aparece. Ela se transformou para o papel e está magnífica (mesmo em papéis menores é ótima, o que se dirá no papel de uma General do Reino de Daomé, Golfo da Guiné, África Ocidental). Ela é acompanhada por duas personagens coadjuvantes de que gostei muito: as guerreiras Izogie e Amenza, interpretadas por Lashana Lynch e Sheila Atim, respectivamente, ambas donas de beleza e carisma invulgar. Perfeitas como coadjuvantes, com a discrição e naturalidade de quem nem parece estar interpretando.

Mas dois coadjuvantes não me convenceram: Thuso Mbedu- a jovem Nawi – e John Boyega. Este faz o rei Ghezo, de Daomé, em performance regular, muito presa à liturgia real. Já a jovem Thuso Mbedu não transmitiu a força e determinação que seu papel requer e, convenhamos, é papel difícil, de fato.

Viola Davis é Nanisca, general de um grupo de guerreiras temidas pela região e que influencia nas disputas de poder da África Ocidental, onde havia vários pequenos reinos envolvidos entre si e os europeus e seu comércio de escravos. Esses últimos são peça chave na situação política e social dessa região – e de outras da África. Como principal mercadoria dos séculos XVI à metade do XIX, o continente exportava pessoas de povos autócnes para a Europa e principalmente para as Américas como escravos, em troca de armas, fumo, bebidas etc. Isso gerou um círculo vicioso, em que mais escravos geravam mais armas que permitiam capturar mais pessoas e por aí vai. Logo imensas partes do continente se viram afetadas pela escravidão atlântica, verdadeira chaga da Idade Moderna.

O filme, diga-se, é inspirado em fatos verídicos.

Nesse sentido, a obra valoriza mais o continente e subverte mais o “status quo” que enlatados como “Pantera Negra”, por exemplo. Este, não fosse o herói ser preto e rei de uma região riquíssima da África – ao passo que os Estados Unidos são nação decadente – funcionaria também com outras cores (embora ressalto que não sei se faria tanto sucesso quanto fez). Em “A Mulher Rei”, temos a beleza e força da mulher guerreira, não da mulher romantizada. Como parte da Agojie – assim se chama o exército formado por mulheres – as personagens principais trazem toda uma bagagem física, cultural, psicológica etc. independente de bandeiras ocidentalizadas e “A Mulher Rei” nos transporta para outra realidade. Ora, as bandeiras do feminismo no Ocidente se deram com a busca pelo direito de votar e se candidatar, abortar, pela isonomia salarial com o homem etc., e nada disso vê-se. Às vezes, e aqui é o caso, quanto menos levantamos bandeiras, mais elas ficam coloridas.

O roteiro se apega a uma ou outra convenção, e a passagem romântica me parece desnecessária. O personagem mestiço de português e africana malhado de academia do século XIX não convence e não há química entre ele e seu par amoroso.

Mas isso é detalhe, pois “A Mulher Rei” é um filmão e Viola Davis, que é protagonista e uma das produtoras do filme, está esplendorosa. Passou por intenso preparo físico para o papel numa entrega, literalmente, de corpo e alma.

 

Cotação: «««

(l - Ruim; «- Regular; ««- Bom; «««- Muito bom; ««««- Ótimo; «««««- Excelente)


Obs: sugiro assistir "Cobra Verde" (1987), dirigido por Werner Herzog e com Klaus Kinski. A história se passa entre o Nordeste do Brasil e o Golfo da Guiné e tem uma abordagem que mistura arte com etnicidade.


Clube dos Vândalos

  Crítica de filme:  Clube dos Vândalos   The Bikeriders. De Jeff Nichols. Com Jodie Comer, Tom Hardy e Austin Butler. Drama. 116 min. ...