Crítica de filme: Até os Ossos
Bones
and All (Estados Unidos, 2022). De Luca Guadagnino. Com Timothée Chalamet,
Taylor Russel e Mark Rilance. Drama/Terror.
Garota
de dezoito anos que se descobre viciada em carne humana se apaixona por rapaz com a mesma característica.
Muito
se esperava do diretor Luca Guadagnino após seus bem-sucedidos “Me Chame Pelo
Seu Nome” e “Suspiria – A Dança do Medo”. No segundo, de 2018, ele trouxe nova
visão ao conciliábulo de bruxas dono de renomada escola de balé, diferente da
do filme “giallo” original de Dario Argento, dos anos setenta. Fez uma
refilmagem das que valem a pena e que valorizam tanto a obra original, quanto a
obra revisada. Esta dá enfoque na disputa interna de poder do conciliábulo, e
aquela nas cores, sensações e sons – um filme muito sensorial.
Sua
incursão pelo terror não convencional dá para perceber pelo trailer. O de “Até
os Ossos” dá ideia de um romance marginal entre Maren (Taylor Russel) e Lee
(Timothée Chalamet, sedutor como sempre). Com a diferença de que esse romance
envolve sangue, canibalismo. Surge então a expectativa de um filme autoral, com
algo por trás difícil de digerir – perdoe o trocadilho.
Logo
no começo, a mocinha Maren descobre que sente atração por devorar carne humana
fresca. Em busca de sentido na vida depois de abandonada pelo pai, Maren viaja
pelo meio-Oeste em busca da mãe que nunca conheceu e sobre quem nada sabe e
descobre que existem pessoas iguais a ela, chamadas “eaters” (devoradores). Não
são zumbis, são pessoas (creio), vivas, que têm um apetite incontrolável por
carne humana, bem como um olfato extremamente apurado que lhes permite
reconhecer-se entre si e sentir o cheiro da morte próxima a quilômetros de
distância.
O
diretor não economiza em cenas fortes, mas não as sensacionaliza nem
sobrenaturaliza. Age com naturalidade no canibalismo, dentro do que é possível.
O problema da projeção começa quando o roteiro vai se transformando de um meio
que terror para um romance road-movie entre Maren e Lee, ambos devoradores que
se cruzam e se apaixonam. Uma quebra e esquecimento de paradigmas e questões
anteriores ao início da projeção vai ocorrendo. Questões do que é ser um
devorador e como é possível ter uma vida normal sendo assim, até que ponto é certo matar pessoas pra se alimentar, se vale a pena
viver uma vida dessas etc. são postas.
Numa
segunda quebra, direção e roteiro “esquecem” aquelas questões tão caras antes
para gerar um clímax fraco. E que subaproveita o personagem de Mark Rilance, o
primeiro “eater” com quem a protagonista entra em contato.
Lee
e Maren em meio à paisagem descampada do Meio-Oeste
Jim
Jarmusch viu os vampiros de uma forma humanista – e até patética - em “Amantes
Eternos”, e se considerarmos os “devoradores” como zumbis vivos, Guadagnino e o
roteirista David Kajganich abrem as portas para uma visão mais holística e
humanística dessas criaturas. Dizendo de outra forma, é louvável como o cinema
é capaz de expandir um conceito ou ideia e dar a ele novos contornos artísticos,
mesmo quando baseado num romance, no caso, o homônimo de Camille De Angelis.
Mas
dois filmes mais simples e menos ambiciosos artisticamente que este “Até os
Ossos”, que também envolvem comer carne humana, me parecem mais atrativos. São
eles “Raw”, produção francesa de 2016 sobre jovem caloura no curso de
veterinária que, após um trote na faculdade, descobre sentir esse gostinho
especial; e “Somos o que Somos”, película de 2013 em que família isolada
formada por pai e duas jovens filhas, controlada pelo patriarca com mão de
ferro, guarda segredos quanto à sua tradição alimentar. São filmes menores, do
tamanho de casinha de sapê perto da mansão que Guadagnino ousou realizar.
Segue o trailer:
Cotação:
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