quarta-feira, 30 de novembro de 2022

O Golpista do Ano

Crítica de filme: O Golpista do Ano

I Love You Phillip Morris (Estados Unidos, 2010). De Glen Ficarra e John Requa. Com Jim Carrey, Ewan McGregor, Leslie Mann, Rodrigo Santoro. Comédia / Drama.

 

Policial sofre acidente e quase morre. Depois, assume ser gay e se torna estelionatário.

Às vezes assistimos filmes ou séries sem estar no “mood” (humor) para tal. Nossa consciência está longe pensando nalguma coisa, certa preocupação nos afeta, estamos ansiosos, sonolentos, sem vontade de ver esse ou aquele gênero na ocasião, com vontade de fazer outra coisa que não ficar na frente de uma tela, ou, ainda, o problema pode estar na companhia errada. Situações assim, comuns a todos, afetarão o quanto gostaremos do que assistirmos. E mais, o quanto nos disporemos a apreciar a projeção.

Por isso é importante ter cuidado ao analisar uma obra nesses quebrantes. Esse foi o caso de “O Golpista do Ano”, que assisti sem vontade, e cujo tempo de projeção só me fez desgostar mais e mais do que via.

Jim Carrey é Steven Russel, um policial casado com mulher que sofre acidente de carro e após, se assume homossexual e passa a viver de fraudes e golpes. Dali em diante, ele mesmo diz, será uma “bichona”. Usará identidades e cartões de crédito falsos, se passará por advogado, financista etc. e procurará dar ao seu parceiro um alto padrão de vida, algo que o emprego de policial não possibilita. Preso, apaixona-se por um colega de presídio, chamado Phillip Morris (Ewan McGregor), condenado “light” por fraude contra seguro, e os dois começam um relacionamento. Um verdadeiro amor.

Para começar, Jim Carrey tem os mesmos trejeitos no rosto e no corpo de outras interpretações suas. Em nenhum momento ele me pareceu um homossexual; o ator interpreta como se estivesse numa de suas comédias usuais, escrachadas, cheia de caras, bocas e andar disforme. Sua química com Ewan McGregor – que é esforçado, e só – é inexistente. Não rola química, física, matemática etc. em outras palavras.

Já bastasse o título original (em livre tradução “Eu Te Amo Phillip Morris”) ter sido mutilado para “O Golpista do Ano”, vemos a encrenca que é um título que fala de amor verdadeiro de um completo picareta gay por outro, não ter química de amor/paixão avassaladora. Nem de comédia, pois os parcos momentos são de riso amarelo. O roteiro, assinado pela dupla de diretores, não se decide entre drama, comédia, aventura, amor LGBTQIA+. Dá errado em todos esses gêneros a que se propõe, de toques de drama a cenas de perseguição policial.

A saga de golpes, prisões e escapadas do personagem principal é mal contada. Inspirada em fatos reais, revela artimanhas pueris, muitas vezes difíceis de engolir.

Rodrigo Santoro faz um pequeno papel; não se compromete em sua atuação. Mas da mesma forma que se dá com Ewan McGregor, não gera química como par romântico com Jim Carrey. Um exemplo de atuação gay de um comediante, não afetada, mas não de todo discreta, é a de Robin Willians em “A Gaiola das Loucas”. Ele e Nathan Lane estão ótimos, fazem uma super dupla. Pudera, além do talento de ambos, a direção é do mestre Mike Nichols.

Segue o trailer:


Cotação: l

(l - Ruim; «- Regular; ««- Bom; «««- Muito bom; ««««- Ótimo; «««««- Excelente)

sábado, 26 de novembro de 2022

Nomadland

 Crítica de filme: Nomadland

Nomadland (Alemanha/Estados Unidos, 2020). De Chloé Zhao. Com Frances McDormand, David Strathairn e Linda May. Drama.

 

Mulher mora em carro-trailer, viajando pelos EUA em busca de trabalho.

“Nomadland” foi a produção mais premiada pelo Oscar num ano marcado pela pandemia. Recebeu, em 2021, as estatuetas de Melhor filme, diretor (Chlóe Zhao) e atriz (Frances McDormand, seu terceiro Oscar) e concorreu em outras três categorias: roteiro adaptado, montagem e fotografia. Neste ano atípico houve grandes concorrentes, como “Bela Vingança”, “Meu Pai”, “Mank”, “Minari”, “Sound of Metal”, entre outros. Assim, a pandemia não afetou a qualidade da premiação.

A crise de 2008 nos Estados Unidos é uma ferida ainda presente e que demorará décadas para cicatrizar. É ela o pano de fundo do filme e dos personagens: pessoas que perderam suas casas e empregos e que provavelmente não os recuperarão. Agora optaram por viver em trailers, viajando pelo país em busca de trabalho ou de se encontrarem, de sobreviver econômica e emocionalmente. Estão presentes a mão-de-obra sujeita a contratos precários, temporários, frágeis, as aposentadorias diminutas, a desindustrialização aqui e ali... o crescimento da pobreza no centro do capitalismo.

É como um furacão que destrói a já frágil vida pessoal de muita gente, levando inúmeras a tornarem-se “nômades”, isto é, a viverem em trailers e percorrerem o país em busca de trabalho e/ou de um lugar onde possam se sentir em casa. Não é uma vida fácil, mas tem seus encantos, onde cada pessoa é um universo. Fotografia e trilha sonora de primeira.

Esse universo que cada pessoa representa, que cada individualidade é, é um dos pontos fortes do roteiro da própria diretora. Pessoas “nômades” de verdade fazem parte do elenco, isto é, não são atores profissionais. Elas contam um pouco de suas histórias, dramas e dilemas, cruzando com a personagem principal.

Frances McDormand encarna Fern, uma “nômade” que, se não representa todos eles – pois é impossível, porque cada vida e história são únicos – dá panorama bom ao espectador, na medida em que ela ainda interage com tantos “Nômades”. Sim, ser “nômade” não significa viver isolado, como um eremita. Também é importante frisar que não significa não ter onde morar, ser um sem-teto, mas que a pessoa mora em um trailer ou carro adaptado a trailer e assim, mora no mesmo lugar, mas vive viajando de cidade a cidade, Estado a Estado.

Sensível, “Nomadland” quase me fez chorar na cena da personagem comemorando sozinha o Ano-Novo no estacionamento de um grande depósito. Contribui para essa emoção triste, mas não descrente, a paisagem de estepe ou semi-árida do meio-oeste estadunidense explorada pela película, como se a secura da paisagem fosse um reflexo daquelas almas desamparadas. Sim, existe esse desamparo, essa solidão, essa sensação de grandeza do mundo e pequenez de uma vida... Mas disso a direção encontra beleza, encanto e poesia.


Por fim, o filme fez-me repensar meu papel como consumidor, que é um papel de responsabilidade. Pois, ao consumir produtos e serviços muito baratos, percebi que parte da pechincha vem da exploração e precarização da força de trabalho. Muitos dos “nômades” personificam o quanto o capital é predatório.

Cotação: «««

(l - Ruim; «- Regular; ««- Bom; «««- Muito bom; ««««- Ótimo; «««««- Excelente)

terça-feira, 22 de novembro de 2022

O Padre

 

Crítica de filme: O Padre

Priest (Reino Unido, 1994). De Antonia Bird. Com Linus Roache, Tom Wilkinson, Robert Carlyle e Cathy Tyson. Drama/LGBTQIA+

 

Jovem padre vai a paróquia de Liverpool e começa a questionar sua fé e o conservadorismo da Igreja.



Meu Deus!!! Neste filme tem um padre fazendo sexo com outro homem!!!”

 

A frase acima foi das que mais marcou a obra quando do seu lançamento no longínquo ano de 1994. Lembro que foi um escândalo lançar um filme no qual um padre se deitava com outro homem. Oposto a isso, surgiu também uma atração que lhe deu visibilidade, surgindo forças centrípetas e centrífugas. Polêmicas, geralmente, levam a dois lados: o da repugnância e o da atração, muitas das vezes mais engendrados pela curiosidade.

Mais de vinte e cinco anos depois, percebe-se que essa polêmica, esse bá-fá-fá todo, é exagerado. Houve certo sensacionalismo, seja da imprensa, produtores e distribuidores. Porque o foco do roteiro é mais o conservadorismo e as contradições da Igreja Católica de fins do século XX. Os preceitos e normas católicos estão adaptados à atualidade? Como não será difícil para um padre, hoje, agir igual aos seus pares de quinhentos ou mil anos atrás, considerando que estão inseridos numa sociedade totalmente diferente? Para o filme dirigido por Antonia Bird a partir do roteiro de Jimmy McGovern, a atuação clerical está presa a normas e crenças defasadas.

Esse é o eixo central do filme. O padre Matthew Thomas (Tom Wilkinson), superior do jovem Padre Greg Pilkington (Linus Roache) na Paróquia de Liverpool, é um homem bastante ligado às teorias progressistas da igreja. Aquele mantém um relacionamento como se fosse casado com a governanta, quebranto o celibato. E o Padre Greg é gay, mas não abertamente.

É, pois, a crise da igreja católica o eixo de gravidade do filme, e não a homossexualidade de um padre. A parte da homoafetividade do jovem Padre Greg sequer é bem desenvolvida, mas deve-se relevar porque à época da produção não era fácil falar disso; era até perigoso. Hoje não parece assim. Não há nada particularmente escandaloso ou afrontoso na projeção.


Padre Greg e Padre Matthew Thomas no púlpito


Repetindo: mais que um filme LGBTQIA+, “O Padre” trata das incoerências da Igreja, que aprisionam tanto padres como fiéis a uma moral constantemente inadequada para a realidade atual. A homossexualidade de um e a quebra do celibato pelo outro são partes de um contexto maior. Destaque para seus atores, Linus Roache e Tom Wilkinson.

 

Cotação: ««

(l - Ruim; «- Regular; ««- Bom; «««- Muito bom; ««««- Ótimo; «««««- Excelente)


quinta-feira, 17 de novembro de 2022

A Chegada

Crítica de filme: A Chegada

Arrival (Estados Unidos, 2016). De Denis Villeneuve. Com Amy Adams, Jeremy Renner e Foresty Withaker. Ficção científica.

 

Artefato alienígena pousa na Terra. Uma equipe formada por uma renomada linguista e outras pessoas é chamada para comunicar-se com os invasores.


Ao final da sessão, duas moças conversam:

— Mermã...

— Oi.

— Tu escutaste o ronco daquele senhor perto da gente?

— Se escutei? Eu e metade de quem estava no cinema. Ele roncou quase o filme todo. Mas tinha pouca gente.

— E não é? Nunca vi isso, esse aí estava no sétimo sono. Misericórdia. Mas me explica aqui, quem eram aqueles ETs?

— Eram ETs, ora!

— Sim, eu sei, mas o que eles queriam? Ficavam soltando uma fumacinha e essa fumacinha formava a letra deles.

— Queriam passar uma mensagem para a moça cientista, não lembra? Essa era a escrita deles.

— Lembro sim. Mas e a filha dela que morreu, o que tinha a ver? Toda hora a "piquena" aparecia...

— Tu não prestaste atenção no filme não? Tu estavas na sala, ou estavas dormindo ou o quê?

— Credo, vou já comprar capim para tu comer aqui na praça de alimentação.

...

— Mermã..., gostei do filme não. Ele é muito paradão. São uns ETs que aparecem numas conchas gigantes, e tentam se comunicar com a gente, mas ninguém se entende, por que a linguagem deles é bem diferente da nossa, né? E ainda tem aquele general chinês que quer é guerra contra eles...

As duas amigas se olham. Daí a outra diz:

— Eu também não gostei. Pensei que fosse um filme melhor, pois chamam logo uma linguista – a Amy Adams, gosto muito dela – para tentar se comunicar com alienígenas tão diferentes do que a gente está acostumado a ver no cinema. Quando a gente pensa em filmes de contato extraterrestre, pensa logo em chamar o Presidente, a polícia, os militares, cientistas da NASA, etc. Menos linguistas. Nisso gostei. Aliás, no começo gostei, a projeção prometia, mas depois quase dormia também. Assim, o filme é diferente, é uma ficção científica diferentona, mas para pior. É chato.

— É mesmo. Quem sabe no próximo filme a gente tem mais sorte. 



A gente se comunica escrevendo e falando, eles soltam fumaça. Os mesopotâmios deixaram textos em argila cozida e os incas davam nós em cordas.

Bom humor à parte, concordo com as duas.

"A Chegada" trata sobre a dificuldade de comunicação num possível encontro com alienígenas e, por extensão, da dificuldade que nós, humanos, temos de nos comunicar uns com os outros — assim como nação com nação. O problema é, ao mesmo tempo em que tem essa intenção nobre, desce com mão de chumbo sobre os chineses, na figura do general Shang, interpretado por Tzi Ma. Quer dizer, nesse aspecto, o filme rejeita enxergar uma outra potência, rejeita dialogar, rotula-a intransigente. Assim, ele se sabota na sua intenção. Se antes a desconfiança dos norte-americanos recaía nos índios, mexicanos, nazistas, soviéticos, japoneses, agora recai sobre os chineses e seu poderio bélico, econômico e populacional. São eles a grande ameaça à paz, hoje.

O filme de Denis Villeneuve podia ser menos pernóstico, mas, saiu com oito indicações ao Oscar, incluindo Melhor filme, direção e roteiro adaptado. Venceu em edição de som. Sinal de que a Academia gostou dele, e o público também... dele e de seu norte americanismo. Eu – e as duas moças - fomos exceção. Nisso, não há derrotados nem vencedores, cumpre dizer, há apenas opiniões e análises.

Ademais, Denis Villeneuve faria bonito nas duas obras seguintes: “Blade Runner 2049” e “Duna”.

 

Cotação: «

(l - Ruim; «- Regular; ««- Bom; «««- Muito bom; ««««- Ótimo; «««««- Excelente)


Sugestão de ficção científica com pouca ação, mas muito melhor, é “Contato”, baseado no livro de Carl Sagan. É dirigido por Robert Zemeckis e conta com Jodie Foster no papel principal.

terça-feira, 15 de novembro de 2022

Gremlins 2: A Nova Geração

Crítica de filme: Gremlins 2: A Nova Geração

Gremlins 2: The New Batch (Estados Unidos, 1990). De Joe Dante. Com Zach Galligan, Phoebe Cates, John Glover, Robert Prosky, Haviland Morris, Dick Miller, Christopher Lee e Gedde Watanabe. Comédia/Fantasia/Terror.

 

Gizmo é acidentalmente molhado e gera terríveis monstrinhos que tomam arranha-céu de Nova Iorque.

 

Nomeei “três grandes”, que são os três melhores filmes que considero já ter visto na minha vida. Ainda que venha a ver outros de que goste mais – e isso, de fato, já aconteceu e decerto espero, voltará a acontecer -, considero essa lista definitiva. Definitiva, mas enquanto existe. Pode parecer paradoxal essa ideia, mas é só impressão, pois ela tem sua lógica e está num contexto próprio, que estou explicando. A lista dos “três grandes” poderá ser refeita ou desfeita a qualquer momento, mas atualmente, é perfeitamente válida, e a considero imexível até segunda ordem. Por exemplo, ela não inclui “Mad Max – Estrada da Fúria”, mas poderia incluir (ou não?!), essa película maravilhosa assistida posteriormente à definição dos “três grandes” e que considero tudo de bom.

Portanto, refletindo um pouco, resolvi mexer na lista imexível. Não tirando nenhum, mas incluindo um filme visto antes dela e que não estava lá por puro preconceito. Explico. Comecei a me interessar mais por filmes a partir dos quinze anos de idade, e os anos de 1995 e principalmente, 1996 e 1997, foram um divisor de águas na minha relação com o cinema. Foi aí que a criança foi dando lugar a um adulto, foi aí que, por assim dizer, fui “amadurecendo” para o cinema como uma criança vai se tornando adolescente para enfim se transformar num adulto. O período de 1995 a 1997 foi decisivo no meu percurso de cinéfilo.

Até essa época, meu filme preferido era “Gremlins 2: A Nova Geração”, de 1990. Excluí ele da lista dos melhores por acreditar que fosse um filme da minha época infanto-juvenil no cinema, que deveria então dar lugar a uma vida mais adulta, mais “séria”. Ledo engano que, agora, corrijo. Revi a continuação do primeiro “Gremlins” em 2021 e desfiz o erro. Os bichinhos loucos desvairados e malvados são um clássico do cinema independente da idade do espectador; não são, pois, um filme exclusivamente para crianças e adolescentes. Justiça seja feita, a obra tem qualidades inúmeras e é adorado não apenas por mim, mas por uma legião de crianças, jovens, adultos, idosos e atores, produtores, diretores, roteiristas, cineastas enfim, e críticos de cinema. Eu não estou sozinho em achar excelente o segundo filme dos bichinhos. A produção é amada mundialmente.

Uma divisão entre filmes “sérios” e “não-sérios”, ademais, soa pernóstica, academicista, excludente.

Portanto, “Gremlins 2: A Nova Geração”, integra-se a “Os Sete Samurais”, “Nós que nos Amávamos Tanto” e “Os Guarda-chuvas do Amor”, transformando o terceto num quarteto.

Vejamos o  porquê.



Gizmo acima e à direita; à esquerda um gremlin do mal depois que ele é molhado

“Gremlins 2: A Nova Geração” é exceção da regra de que o segundo filme é inferior ao primeiro, como ocorre com “O Poderoso Chefão”, “Mad Max 2: A Caçada Continua” e “O Império Contra-ataca”, entre outros. Agora, a ação se passa num moderno edifício de negócios de Nova Iorque. Gizmo é acidentalmente molhado e gera gremlins que põem o edifício de cabeça pra baixo e ameaçam a metrópole. A tecnologia futurista e “diz-que-perfeita” do empreendimento capitalista viram contraponto à fofura e artesanato dos mogwai*, bem como à anarquia/bagunça/desvairamento dos gremlins. Estes se transformam em gremlim elétrico, gremlim intelectual, gremlim tomate, gremlim aranha, morcego etc. As possibilidades dos gremlins são enormes e o filme aproveita muito bem isso. O ritmo nunca esmorece: é ação, bagunça, comédia e um pouco de terror desde o começo. Tudo sob a icônica trilha sonora de Jerry Goldsmith.



* Gizmo é um mogwai. No Natal, um inventor presenteia seu filho com um bichinho de estimação nada comum: um monstrinho chamado Gizmo, com a condição de que ele não fosse exposto ao sol nem à água e nem alimentado após a meia-noite. Simpático e inteligente, ele conquista a criança, mas acidentalmente acaba se molhando e produzindo cinco grotescas criaturas (Wikipedia).

 

Tem até noiva gremlim

Para evitar que Gizmo dê origem a outros gremlins, e que um gremlim dê origem a outros gremlins, isto é, que haja um desastre, é preciso duas coisas: eles não podem se molhar e nem serem alimentados depois da meia-noite. A outra regra de ouro é: eles não toleram a luz do sol, ela os mata.

E é isso que acontece, como vimos, pois novamente Gizmo fica sob o cuidados do meio atrapalhado mocinho Billy Peltzer, que já lidou com Gizmo e os monstrinhos no primeiro filme.

Joe Dante é o diretor e Charlie Haas o roteirista. Joe Dante havia dirigido o primeiro filme de 1984, roteirizado por Chris Columbus. Trata-se de um grande diretor cujo talento não foi devidamente reconhecido, tendo dirigido, entre outros, “Grito de Horror” (1981), “No Limite da Realidade” (1983), o primeiro “Gremlins” (1984) e “Pequenos Guerreiros” (1998).

Interessante é “Gremlins” dialogar com outros filmes, como, “Rambo”, primeiro com Gizmo assistindo o filme e depois na cena em que ele coloca uma faixa vermelha na cabeça, se arma com arco e flecha – digo, clipe e fósforo - e se vinga. Dialoga também com “Robocop 2”, musicais, filmes de gângsteres, salas de cinema etc. Hoje, Gizmo e os gremlins são ícones do cinema e figuras pop reconhecidas, mesmo quando não se consegue associá-los ao filme.

A seguir o trailer do filme e a música-tema interpretada pela orquestra sinfônica dinamarquesa






Cotação: «««««

(l - Ruim; «- Regular; ««- Bom; «««- Muito bom; ««««- Ótimo; «««««- Excelente)



[1] Gizmo é um mogwai. No Natal, um inventor presenteia seu filho com um bichinho de estimação nada comum: um monstrinho chamado Gizmo, com a condição de que ele não fosse exposto ao sol nem à água e nem alimentado após a meia-noite. Simpático e inteligente, ele conquista a criança, mas acidentalmente acaba se molhando e produzindo cinco grotescas criaturas (Wikipedia).

 

domingo, 13 de novembro de 2022

Parasita


Crítica de filme: Parasita

(Gisaengchung). Coréia do Sul, 2019. De Joon-ho Bong. Com Kang-ho Song, Woo Sik-Choi, Park So-Dam, Sun-Kyun Lee, Cho Yeo-Jong, Chang Yae-Jin e Lee Jeong-eun. Drama.

Rapaz de família pobre começa a dar aulas para garota de família rica. Logo fica de olho na riqueza dos pais dela.



O diretor Joon-Ho Bong já era conhecido e renomado antes de “Parasita” (dirigiu “O Hospedeiro” e “Mother - A Busca Pela Verdade”, entre outros). Agora, estourou – ganhou com ele nada mais nada menos que a Palma de Ouro em Cannes, o Globo de Ouro de melhor filme em língua estrangeira e os Oscar de filme, direção, roteiro original e filme em língua estrangeira. Em mais de noventa anos de Oscar, a grande premiação do cinema, foi a primeira obra em língua não inglesa a conquistar seu prêmio máximo.

O IMDB contabiliza para o filme trezentos e oito vitórias e duzentos e setenta e uma indicações em premiações e festivais. Sucesso de crítica sem precedentes, “Parasita” fez história não apenas pelo reconhecimento especializado. O público também o adorou; sua nota de avaliação dos usuários no IMDB é 8,5, com setecentos e noventa mil notas dadas, colocando-o na 34ª colocação.

Cabe ressaltar, porém, que o presente texto foi escrito após Cannes e antes das vitórias no Oscar.

O então mais novo filme de Joon-Ho Bong trata de muitas coisas, mas ressalto a hipocrisia. Da hipocrisia dos que são de baixo, ou seja, são pobres, e dos que pertencem à classe alta. Da hipocrisia a partir da desigualdade econômica.

Os hipócritas não deveriam nos surpreender - ou pelo menos quem com a insiceridade já está acostumado, já que o hipócrita médio não se comporta de forma compatível com o que diz - mas é incrível como o filme surpreende e deixa o espectador, cada vez mais, abismado, pensando: “não acredito que fulano foi/é/será capaz disso...” Sim, fulano será capaz. Haverá "sincericídio".


Temos uma família desprivilegiada e uma privilegiada, como o cartaz acima retrata. Em outras palavras, um núcleo pobre e um rico. Pessoas do primeiro se infiltram no segundo e passam a trabalhar para ele, serem seus empregados – tutor, cozinheiro, motorista, babá - usando artifícios nem um pouco éticos para conseguir os empregos e tirar uma “casquinha” que seja, da riqueza.

Aí forma-se o parasitismo, ou melhor, uma forma de parasitismo. Carrapatos sugando um pouco do sangue de um cachorro, trepadeiras sugando parte da seiva de uma árvore, são formas parasitismo... É interessante como, aos poucos e a partir de certas ocasiões, aqueles que se consideram sugadores e oportunistas veem-se ao contrário, isto é, como hospedeiros. Não estão explorando, estão é sendo explorados. Isso fica muito claro, por exemplo, na cena em que o motorista vai empurrando o carrinho do supermercado conforme sua patroa faz as compras. Sua expressão diz tudo: que mulher é essa, que sequer pode empurrar um carrinho de compras? Por que eu que tenho que fazer isso?

A expressão de ódio de quem está atrás empurrando o carrinho, optei por esconder

A classe operária vai tomando consciência de classe. Marx e Engels adorariam.

Se todos – pobres e ricos - são parasitas, eles são parasitas de que? Do dinheiro, da riqueza, da mansão.

A casa-grande ampla, limpa, de cores claras e decoração minimalista, de uma família, contrasta com a residência da outra família, um cubículo escuro e todo bagunçado e porco, onde se empilham embalagens de pizza.

Joon-Ho Bong toca no dedo da ferida, dá soco no estômago, é visceral. Indo além, leva ao ápice confusão e complexidade que o título da obra traz.

As pessoas do lado pobre dizem algo assim: "é muito fácil você tratar bem os outros e sorrir quando se é rico", ao referir-se aos patrões. Será que a riqueza e a pobreza são determinantes na forma como se trata os outros? Nada. Hipocrisia (uma das muitas). Já os do lado rico se dizem compreensivos e bondosos, mas não hesitam em pôr na rua seus empregados sem qualquer cerimônia.


Cotação: «««««

(l - Ruim; «- Regular; ««- Bom; «««- Muito bom; ««««- Ótimo; «««««- Excelente)


Clube dos Vândalos

  Crítica de filme:  Clube dos Vândalos   The Bikeriders. De Jeff Nichols. Com Jodie Comer, Tom Hardy e Austin Butler. Drama. 116 min. ...