sábado, 20 de agosto de 2022

De Repente Drag

 De Repente Drag

De Rafaela Gonçalves. Com Ruan do Vale, Brenna Maria, Frimes, Luana Granda, Mônica Moretti, Al Danuzio e Silvero Pereira. Comédia.

Jornalista hetero começa a se apresentar como drag queen para investigar caso.



Produção maranhense que impressiona pela qualidade técnica, mas que não vai além disso: roteiro e direção são limitados.

Nela, Julião (Ruan do Vale) é um repórter fracassado cujo ápice da vergonha se dá entrevistando um senhor numa cadeira de rodas, na fila dum posto de saúde. O cadeirante reclama do péssimo atendimento e levanta-se indo embora, fazendo o repórter virar motivo de piada.

(situação real aconteceu com o repórter da TV Mirante Douglas Pinto, que entrevistava um cadeirante que não conseguia ônibus adaptado e que, por algum motivo – ou milagre - saiu caminhando no meio da entrevista).

Cansado de pagar mico e ser escalado para matérias bobas, Julião e a amiga de trabalho Yasmin acidentalmente cruzam com Lohanny, drag queen vítima de tráfico de pessoas visando prostituição. Os dois passam a investigar o esquema de olho num furo de reportagem que alavanque suas carreiras. Mas, para o plano dar certo, Julião precisa se transformar numa drag e vencer um concurso.

É aí que o hetero nerd/geek passa a conhecer de verdade os mundos LGBTQIA+ e drag. O filme então mostra ao espectador, em tons pedagógicos, coisas como dois homens se beijando, duas mulheres se apaixonando, uma explicação da sexualidade de uma bissexual etc. Lembra-nos também que uma drag queen é um personagem, que não se confunde com a pessoa por trás dela. E que homens heteros, casados e com filhos podem ser drag queens, como conta a drag Pepita Ruiz, interpretada por Silvero Pereira, que faz participação especial.

Esse didatismo do filme se sobrepõe, na medida em que não aprofunda a estória, apenas a arrasta. Enjoam os lamentos e reclamações da conversão do personagem principal em drag e uma cena bem tosca, envolvendo Julião e Pepita Ruiz, soa forçada e didática como telenovela ao mostrar a homofobia dum estereotipado machão.

Ora, a homofobia não está só nos homens machistas, está em várias classes, gêneros etc.

As investigações envolvendo tráfico de pessoas, prostituição e a agência de drags ficam relegadas a segundo plano. O personagem de Silvero Pereira some da película, não aparece mais, fica estranho, sem explicação, pois aparentemente teria uma importância na trama. O que mais preenche a projeção são performances de drag queens que, se de início trazem interesse, cansam pelas repetições (exceção à impagável Mia Cara de Gato) e pela pouca versatilidade nos planos e enquadramentos de filmagem. Fora do show, as drags não fogem da caricatura, repetindo closes, gírias e caras e bocas. Sobram palavras, faltam ações: Julião a certa altura diz mais ou menos que se sente mais forte e poderoso como “Kimberly”, mas fica só no dizer... porque o roteiro não dá a isso consequências.

Vai chegando o clímax e aumenta a sensação de que a roteirista e diretora Rafaela Gonçalves perdeu o controle da obra. E se já dava para pressentir, fica a certeza de que a conclusão não será satisfatória.

Ainda que cheio de falhas, “De Repente Drag” é melhor que muita coisa que vem sendo lançada no streaming.

 

Cotação: «

(l - Ruim; «- Regular; ««- Bom; «««- Muito bom; ««««- Ótimo; «««««- Excelente)

Um comentário:

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