Crítica de filme: A Mulher Rei
The
Woman King (Canadá/Estados Unidos, 2022). De Gina Prince-Bythewood. Com Viola
Davis, Thuso Mbedu, John Boyega, Lashana Lynch e Sheila Atim. Ação, Drama,
Histórico.
No século XIX, no reino de Daomé, África Ocidental, a general Nanisca treina um grupo de soldados mulheres.
Viola Davis domina com sua personagem cada vez que aparece. Ela se transformou para o papel e está magnífica (mesmo em papéis menores é ótima, o que se dirá no papel de uma General do Reino de Daomé, Golfo da Guiné, África Ocidental). Ela é acompanhada por duas personagens coadjuvantes de que gostei muito: as guerreiras Izogie e Amenza, interpretadas por Lashana Lynch e Sheila Atim, respectivamente, ambas donas de beleza e carisma invulgar. Perfeitas como coadjuvantes, com a discrição e naturalidade de quem nem parece estar interpretando.
Mas dois coadjuvantes não me convenceram: Thuso Mbedu- a jovem Nawi – e John Boyega. Este faz o rei Ghezo, de Daomé, em performance regular, muito presa à liturgia real. Já a jovem Thuso Mbedu não transmitiu a força e determinação que seu papel requer e, convenhamos, é papel difícil, de fato.
Viola Davis é Nanisca, general de um grupo de guerreiras temidas pela região e que influencia nas disputas de poder da África Ocidental, onde havia vários pequenos reinos envolvidos entre si e os europeus e seu comércio de escravos. Esses últimos são peça chave na situação política e social dessa região – e de outras da África. Como principal mercadoria dos séculos XVI à metade do XIX, o continente exportava pessoas de povos autócnes para a Europa e principalmente para as Américas como escravos, em troca de armas, fumo, bebidas etc. Isso gerou um círculo vicioso, em que mais escravos geravam mais armas que permitiam capturar mais pessoas e por aí vai. Logo imensas partes do continente se viram afetadas pela escravidão atlântica, verdadeira chaga da Idade Moderna.
O filme, diga-se, é inspirado em fatos verídicos.
Nesse sentido, a obra valoriza mais o continente e subverte mais o “status quo” que enlatados como “Pantera Negra”, por exemplo. Este, não fosse o herói ser preto e rei de uma região riquíssima da África – ao passo que os Estados Unidos são nação decadente – funcionaria também com outras cores (embora ressalto que não sei se faria tanto sucesso quanto fez). Em “A Mulher Rei”, temos a beleza e força da mulher guerreira, não da mulher romantizada. Como parte da Agojie – assim se chama o exército formado por mulheres – as personagens principais trazem toda uma bagagem física, cultural, psicológica etc. independente de bandeiras ocidentalizadas e “A Mulher Rei” nos transporta para outra realidade. Ora, as bandeiras do feminismo no Ocidente se deram com a busca pelo direito de votar e se candidatar, abortar, pela isonomia salarial com o homem etc., e nada disso vê-se. Às vezes, e aqui é o caso, quanto menos levantamos bandeiras, mais elas ficam coloridas.
O roteiro se apega a uma ou outra convenção, e a passagem romântica me parece desnecessária. O personagem mestiço de português e africana malhado de academia do século XIX não convence e não há química entre ele e seu par amoroso.
Mas isso é detalhe, pois “A Mulher Rei” é um filmão e Viola Davis, que é protagonista e uma das produtoras do filme, está esplendorosa. Passou por intenso preparo físico para o papel numa entrega, literalmente, de corpo e alma.
Cotação: «««
(l - Ruim; «- Regular; ««- Bom; «««- Muito bom; ««««- Ótimo; «««««- Excelente)
Obs: sugiro assistir "Cobra Verde" (1987), dirigido por Werner Herzog e com Klaus Kinski. A história se passa entre o Nordeste do Brasil e o Golfo da Guiné e tem uma abordagem que mistura arte com etnicidade.
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