terça-feira, 6 de dezembro de 2022

Até os Ossos

Crítica de filme: Até os Ossos

Bones and All (Estados Unidos, 2022). De Luca Guadagnino. Com Timothée Chalamet, Taylor Russel e Mark Rilance. Drama/Terror.

 

Garota de dezoito anos que se descobre viciada em carne humana se apaixona por rapaz com a mesma característica.


Muito se esperava do diretor Luca Guadagnino após seus bem-sucedidos “Me Chame Pelo Seu Nome” e “Suspiria – A Dança do Medo”. No segundo, de 2018, ele trouxe nova visão ao conciliábulo de bruxas dono de renomada escola de balé, diferente da do filme “giallo” original de Dario Argento, dos anos setenta. Fez uma refilmagem das que valem a pena e que valorizam tanto a obra original, quanto a obra revisada. Esta dá enfoque na disputa interna de poder do conciliábulo, e aquela nas cores, sensações e sons – um filme muito sensorial.

Sua incursão pelo terror não convencional dá para perceber pelo trailer. O de “Até os Ossos” dá ideia de um romance marginal entre Maren (Taylor Russel) e Lee (Timothée Chalamet, sedutor como sempre). Com a diferença de que esse romance envolve sangue, canibalismo. Surge então a expectativa de um filme autoral, com algo por trás difícil de digerir – perdoe o trocadilho.

Logo no começo, a mocinha Maren descobre que sente atração por devorar carne humana fresca. Em busca de sentido na vida depois de abandonada pelo pai, Maren viaja pelo meio-Oeste em busca da mãe que nunca conheceu e sobre quem nada sabe e descobre que existem pessoas iguais a ela, chamadas “eaters” (devoradores). Não são zumbis, são pessoas (creio), vivas, que têm um apetite incontrolável por carne humana, bem como um olfato extremamente apurado que lhes permite reconhecer-se entre si e sentir o cheiro da morte próxima a quilômetros de distância.

O diretor não economiza em cenas fortes, mas não as sensacionaliza nem sobrenaturaliza. Age com naturalidade no canibalismo, dentro do que é possível. O problema da projeção começa quando o roteiro vai se transformando de um meio que terror para um romance road-movie entre Maren e Lee, ambos devoradores que se cruzam e se apaixonam. Uma quebra e esquecimento de paradigmas e questões anteriores ao início da projeção vai ocorrendo. Questões do que é ser um devorador e como é possível ter uma vida normal sendo assim, até que ponto é certo matar pessoas pra se alimentar, se vale a pena viver uma vida dessas etc. são postas.

Numa segunda quebra, direção e roteiro “esquecem” aquelas questões tão caras antes para gerar um clímax fraco. E que subaproveita o personagem de Mark Rilance, o primeiro “eater” com quem a protagonista entra em contato.

Lee e Maren em meio à paisagem descampada do Meio-Oeste

Jim Jarmusch viu os vampiros de uma forma humanista – e até patética - em “Amantes Eternos”, e se considerarmos os “devoradores” como zumbis vivos, Guadagnino e o roteirista David Kajganich abrem as portas para uma visão mais holística e humanística dessas criaturas. Dizendo de outra forma, é louvável como o cinema é capaz de expandir um conceito ou ideia e dar a ele novos contornos artísticos, mesmo quando baseado num romance, no caso, o homônimo de Camille De Angelis.

Mas dois filmes mais simples e menos ambiciosos artisticamente que este “Até os Ossos”, que também envolvem comer carne humana, me parecem mais atrativos. São eles “Raw”, produção francesa de 2016 sobre jovem caloura no curso de veterinária que, após um trote na faculdade, descobre sentir esse gostinho especial; e “Somos o que Somos”, película de 2013 em que família isolada formada por pai e duas jovens filhas, controlada pelo patriarca com mão de ferro, guarda segredos quanto à sua tradição alimentar. São filmes menores, do tamanho de casinha de sapê perto da mansão que Guadagnino ousou realizar.

Segue o trailer:


Cotação: «

(l - Ruim; «- Regular; ««- Bom; «««- Muito bom; ««««- Ótimo; «««««- Excelente)



Nenhum comentário:

Postar um comentário

Clube dos Vândalos

  Crítica de filme:  Clube dos Vândalos   The Bikeriders. De Jeff Nichols. Com Jodie Comer, Tom Hardy e Austin Butler. Drama. 116 min. ...