Crítica de filme: Nomadland
Nomadland
(Alemanha/Estados Unidos, 2020). De Chloé Zhao. Com Frances McDormand, David
Strathairn e Linda May. Drama.
Mulher mora em carro-trailer, viajando pelos EUA em busca de trabalho.
“Nomadland”
foi a produção mais premiada pelo Oscar num ano marcado pela pandemia. Recebeu,
em 2021, as estatuetas de Melhor filme, diretor (Chlóe Zhao) e atriz (Frances
McDormand, seu terceiro Oscar) e concorreu em outras três categorias: roteiro
adaptado, montagem e fotografia. Neste ano atípico houve grandes concorrentes,
como “Bela Vingança”, “Meu Pai”, “Mank”, “Minari”, “Sound of Metal”, entre
outros. Assim, a pandemia não afetou a qualidade da premiação.
A crise de
2008 nos Estados Unidos é uma ferida ainda presente e que demorará décadas para
cicatrizar. É ela o pano de fundo do filme e dos personagens: pessoas que
perderam suas casas e empregos e que provavelmente não os recuperarão. Agora
optaram por viver em trailers, viajando pelo país em busca de trabalho ou de se
encontrarem, de sobreviver econômica e emocionalmente. Estão presentes a
mão-de-obra sujeita a contratos precários, temporários, frágeis, as
aposentadorias diminutas, a desindustrialização aqui e ali... o crescimento da
pobreza no centro do capitalismo.
É como um
furacão que destrói a já frágil vida pessoal de muita gente, levando inúmeras a
tornarem-se “nômades”, isto é, a viverem em trailers e percorrerem o país em
busca de trabalho e/ou de um lugar onde possam se sentir em casa. Não é uma
vida fácil, mas tem seus encantos, onde cada pessoa é um universo. Fotografia e
trilha sonora de primeira.
Esse universo
que cada pessoa representa, que cada individualidade é, é um dos pontos fortes
do roteiro da própria diretora. Pessoas “nômades” de verdade fazem parte do
elenco, isto é, não são atores profissionais. Elas contam um pouco de suas
histórias, dramas e dilemas, cruzando com a personagem principal.
Frances
McDormand encarna Fern, uma “nômade” que, se não representa todos eles – pois é
impossível, porque cada vida e história são únicos – dá panorama bom ao
espectador, na medida em que ela ainda interage com tantos “Nômades”. Sim, ser
“nômade” não significa viver isolado, como um eremita. Também é importante
frisar que não significa não ter onde morar, ser um sem-teto, mas que a pessoa
mora em um trailer ou carro adaptado a trailer e assim, mora no mesmo lugar,
mas vive viajando de cidade a cidade, Estado a Estado.
Sensível, “Nomadland” quase me fez chorar na cena da personagem comemorando sozinha o Ano-Novo no estacionamento de um grande depósito. Contribui para essa emoção triste, mas não descrente, a paisagem de estepe ou semi-árida do meio-oeste estadunidense explorada pela película, como se a secura da paisagem fosse um reflexo daquelas almas desamparadas. Sim, existe esse desamparo, essa solidão, essa sensação de grandeza do mundo e pequenez de uma vida... Mas disso a direção encontra beleza, encanto e poesia.
Por fim, o filme fez-me repensar meu papel como consumidor, que é um papel de responsabilidade. Pois, ao consumir produtos e serviços muito baratos, percebi que parte da pechincha vem da exploração e precarização da força de trabalho. Muitos dos “nômades” personificam o quanto o capital é predatório.
Cotação:
«««
(l - Ruim; «- Regular; ««- Bom; «««- Muito bom; ««««- Ótimo; «««««- Excelente)



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